MAL-AVENTURADO AFLITO

aflitoMAL-AVENTURADO AFLITO

 

tomo antidepressivos

leio livros de autoajuda

entoo mantras festivos

e, ainda assim, nada muda

 

 

apelo a Krishna, a Buda

a Baphomet e a Shiva

mas, oh! minha fé miúda. . .

a nenhum deles cativa

 

 

ai! não há Deus que me acuda

e nenhum Santo me livra

dessa impaciência aguda

gorda, parruda e nociva

 

 

se evoco Rilke ou Neruda

seus espíritos esquivos

veem a  minha face ossuda

e evolam-se . . .  incompassivos

 

 

nenhum Arcanjo me ajuda

nenhum Orixá me ampara

e a inquietude não sara. . .

é cada vez mais graúda

 

 

nem a poesia desnuda

que eu acolho em mim, repara

que a sorte . . . não me saúda

não me sorri . . . nem me encara

 

 

dai-me ayahuasca, santo Daime!

figas . . . ou ramos de arruda!

livrai-me Tupã, salvai-me

desta desdita absurda!

 

 

Santa Rita, Santa Clara

Santo Expedito, São Judas

não peço Graças polpudas

só quero . . . ficar Odara

 

 

ser mais que um bardo barato

ser um poeta benquisto

um popular literato. . .

(haverá pecado nisto)?

 

 

São Pedro! São Benedito!

São Francisco! São Tomé!

confesso-me por escrito!!!

(há maior prova de fé)???

 

 

não mereço um veredito

mais favorável . . .  ué?

ou nasci pra ser maldito

feio . . .  e pobre de marré?

 

 

podem dar um jeito nisto. . .

não é tão difícil. . . É?

Falem lá com Jesus Cristo

Mãe Maria . . .   ou pai José!

 

 

ninguém no reino divino

quereria apiedar-se

de um poetinha mofino

mal aprumado e sem classe?

 

 

versejo desde menino. . .

pelejo pra não pecar. . .

será que não mereço outro destino         

que este de rimar . . . só com o azar??? 

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ENQUANTO TUDO PASSA

 tudo passa

ENQUANTO TUDO PASSA

 

Mesmo que meus estandartes

agora, sejam farrapos

e, de minhas esperanças

restem apenas fiapos

 

Eu ainda cuspo fogo . . .  

Recuso-me a engolir sapos

 

E, com ‘vivos e defuntos’

tenho mil e um assuntos

para muitos, muitos papos

 

 

Fora da lei (do silencio)

tornei-me  imune às mordaças!

Não temo os ‘monstros sagrados’

e nem tremo ante ameaças

 

Versejo em línguas de fogo

(eu não esculpo fumaças)

 

 

Minha Lira é carne viva!

Palavra intrépida, ativa. . .

(e não ração para traças)

 

 

Que pena eu tenho dos bobos

‘lobos maus’ que, com trapaças

tentam causar ‘tempestades’

mas,  causam ‘chuvas esparsas’

 

 

(das que não chovem nem molham)

Reis do embuste! fãs da farsa!

Só rosnam . . .  uivam . . .  me olham

sonham . . .  a minha desgraça   

 

 

Mas, nenhuma névoa embaça

meu olho . . .  de furacão!

E, ainda não há rima que eu não faça

pois, nada esgarça a  minha inspiração

 

 

Sou brando como uma garça!

Mais fogoso que um dragão!

E o pão . . .   que o diabo amassa

eu como . . .  com requeijão!

 

 

Caçador nenhum me caça!

Voo alto e de pés no chão . . .

‘nem aí’ pra Lira lassa

dos ‘velhacos’ de plantão!

 

 

Levo no peito (e na raça)

fé na malandra escansão!

Tomo chá, tomo cachaça

mas, juízo . . . tomo não!

 

 

Pois, desajuizado alcanço a graça

de enlouquecer à salvo de ser são. . .

 

Verso demais, porém, não verso em vão

e permaneço . . . enquanto tudo passa.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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CARLA

CARLA9

CARLA

 

Carla cala calafrios

fotografa balbucios

despetala solidões

 

 

Carla inala desvarios

espinafra poderios

exala alucinações. . .

 

 

Carla encarna carnavais

Carla come canibais . . .

leva pra cama leões. . .

 

 

gera auroras boreais

destempera temporais

e enfurece furacões. . .

 

 

Carla aniquila querelas

Carla escangalha mazelas

Carla. . .  cintila no breu

 

 

mas, nunca leu as rimas requenguelas

que escrevo em seu louvor, à luz de velas

velando  meu desejo de ser seu.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGE by GARY STEPHEN GEORGE

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LÚCIDO DELÍRIO

LÚCIDO1LÚCIDO DELÍRIO

 

antevejo a glória mas . . .  não me deslumbro

entrar para a história não me entusiasma. . .

pois, sei  que os muitos  louros que vislumbro

servirão só para adornar . . . o meu fantasma.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGEM: FERNANDO PESSOA

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HUMANOS

HUMANOS

HUMANOS

 

Penso que as certezas (mais absolutas)

aleijarão e afearão nossas belezas

contaminando almas justas e impolutas

com o furor de exasperadas asperezas

 

 

A estupidez voraz que estupra sutilezas

é o que impele os bons a pérfidas condutas. . .

Ela corrói, corrompe o cerne das nobrezas

promove o caos e mil  maléficas disputas

 

 

E enquanto o Mal remói, dilui delicadezas

dentro em seu fundo mar de lágrimas e sangue

todo o Amor, o Bem e a  Luz das gentilezas

naufragam juntos no negrume de algum mangue

 

 

Talvez . . . Talvez, a Paz no mundo nunca vingue

e a Luz não vença as invencíveis desavenças. . .

Nosso planeta vive em guerra, a Vida é um ringue

e nós, anões . . .  anões  com ânsias muito imensas

 

 

Haverá mesmo tantas raças, classes, crenças

ou ninguém mais consegue ver a Igualdade

que pulsa mansa . . . e dança em nossas ‘diferenças’

clamando o fim da nossa intensa Iniquidade? 

 

 

O vil poder dos falsos “donos da verdade”

(que são tão só os vis ‘Senhores da mentira’)

vêm retorcendo e distorcendo a Realidade. . .

(mesmo o mais lúcido entre nós, pira e delira)

 

 

O grande Mal tem nos mantido sob a mira. . .

insufla ódios, cismas, iras e vinganças

Graças a Deus, em meio ao caos há quem prefira

plantar ternura, amor, poesia . . .  e esperanças!

 

 

E eu creio . . .  eu creio com a fé de mil crianças

(e a força honrosa e poderosa dessa Lira)

na vasta Graça das vindouras alianças

de Paz que hão . . . hão  de curar todas as iras. . .

 

 

Eu creio, eu creio no porvir . . .  nas áureas eras

de plena Solidariedade entre as nações. . .

Creio na morte do Egoísmo e destas feras

dissimuladas . . .  que semeiam dissensões

 

 

Sei que a  ternura vencerá os vis Dragões

e extinguirá completamente os vãos enganos. . .

Eu creio em tempos de reais transformações

que hão de tornar-nos . . .  verdadeiramente Humanos.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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RETOCADO AXIOMA

AXIOMARETOCADO AXIOMA

 

Não conhecereis a verdade

pois, a pós-verdade

vos enganará.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

CHARGE by SHOVEL

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ANÔMALO E NORMAL

ANÔMALOANÔMALO E NORMAL

 

uma pílula, uma pérola

uma epístola, um postal

uma sílaba, uma cédula

uma súmula, um sinal

 

uma fábula, uma vírgula

uma espátula, um punhal

uma gárgula, um Calígula

uma távola, um quintal

 

uma célula maligna

uma insígnia banal

uma flâmula, um enigma

uma lágrima sem sal

 

um apóstolo, uma pústula

um apóstata do mal

um subsolo, uma cúpula

um crápula angelical

 

rei dos judeus, do cangaço

ser anômalo e normal

deus imortal e palhaço. . .

sou poeta marginal 

 

 

e, sem pejo ou embaraço

desnaturo o natural

aconteço, faço e passo

do ponto . . .  (e ponto final)!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGEM: por RENÉ MAGRITTE

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SORAIA SEREIA

rené 1SORAIA SEREIA

 

‘’a vida é tão curta quanto a tua saia’’

mas inda te enfurnas no quarto dos fundos

e segredas versos à uma samambaia

alheia a beleza de bilhões de mundos

 

 

que pairam no espaço infinito, Soraia

enquanto  teu corpo perfeito definha

enquanto  teu corpo moreno desmaia

de tédio na cama em que dormes sozinha. . .

 

 

à espera da morte, vives de tocaia

não sabes o nome da tua vizinha

se a lua está cheia, se o sol inda raia

ou se a humanidade rasteja ou caminha

 

 

e o que só deus sabe e ninguém adivinha

é o quanto te amo . . . te amo Soraia!

e tudo eu faria pra que fosses minha

moveria os montes de todo o Himalaia

 

 

mas, tu sequer lembras da força que tinhas

dos velhos amigos, da casa na praia

de nós vendo estrelas, catando conchinhas

sentados na areia e ouvindo Tim Maia. . .

 

 

lembro-me de tudo, de cada coisinha

das tuas blusinhas tomara que caia. . .

dos teus lindos brincos de água-marinha

de todas as flores que te dei,  Soraia

 

 

mas, agora o medo dentro em ti se apinha

te rói ,te espezinha, te prende à uma teia

e tu já não ousas . . .  não cruzas a linha

tu és prisioneira . . . e a própria cadeia

 

 

e a minha esperança morre . . . pobrezinha

poema de amor que não tem quem o leia. . .

peixe fora d’água . . .  sol que se esfarinha

e morre a esperar-te, Soraia . . . sereia.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGEM: ‘’INVENÇÃO COLETIVA’’ por RENÉ MAGRITTE

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ANJO DO GEENA

GEENA1

ANJO DO GEENA

 

eu amaria  Maria

amaria Madalena

Helena, Lúcia, Luzia

Eleonora e Milena

 

 

bem como amaria Lia

Clara, Carla, Filomena

Vitória, Beth, Sofia

Vilma loira e Ana morena

 

 

mas, bem sei que sofreria. . .

e não valeria a pena. . .

 

qual delas fiel seria

a um anjo do Geena?

 

 

prefiro amar a açucena

a flor do campo, vadia

ou a papoula obscena

(cuja seiva me extasia)

 

 

ser um tocador de Avena. . .

doido amásio da poesia. . .

e negro colibri (de alma pequena)

deflorando  as flores . . .  que me dão valia.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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VIRTUOSO VÍCIO

VIRTUOSO 4

 

VIRTUOSO VÍCIO

 

não! simuladas audácias!

não! refinadas falácias!

‘poemas para inglês ler’

 

 

eu quero é dizer acácias

e cantarolar galáxias

pra todo mundo entender!

 

 

meus ingênuos malabares

minhas rimas singulares

são simplórias peripécias

 

 

mas, iluminam olhares

fluem, diluem luares

e eletrizam as inércias

 

 

a alma do meu negócio

é ser dos delírios sócio

fazer de meu ócio, ofício

 

 

e de solstício, equinócio

e dos versos, sacerdócio

ou santificado vício!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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