MORAR NO LUME

morarMORAR NO LUME

 

incomodado, eu ouço o cricrilar dos grilos,

a triturar, a estilhaçar os meus sigilos  

e os meus anseios de cristal

dentro da treva. . .

 

 

conhecem bem os mil idílios que mutilo,

todos os versos que componho, que compilo

e a solidão sem fim da qual

minh’alma é serva . . .

 

 

eles veem  tudo que elaboro, que burilo

sabem as rimas que eu adoro, as que repilo

e tudo aquilo que me acalma ou que me enerva

 

 

com asco, espiam-me . . .  e homiziam-se na relva

enquanto tonto,  entre a paz e a guerra oscilo

buscando o utópico equilíbrio sob a névoa

 

 

desta assombrosa, impiedosa e fria selva

dentro da qual, por ser covarde, inda me exilo

feito um Adão selvagem , lúgubre  . . . e sem Eva

 

 

somente um último desejo se conserva

dentro de mim : morar no lume que me enleva. . .

e converte-lo em meu  eterno e terno asilo

 

 

entrar no lacrimoso olhar dos crocodilos

que, pelas noites, observam-me  tranquilos. .  .

enquanto o pálido luar no ar se eleva

 

 

e nunca mais . . . ouvir o cricrilar dos grilos

a triturar, a estilhaçar os meus sigilos. . .

e  os meus anseios de cristal . . . dentro da treva.                

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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MAL-AVENTURADO AFLITO

aflitoMAL-AVENTURADO AFLITO

 

tomo antidepressivos

leio livros de autoajuda

entoo mantras festivos

e, ainda assim, nada muda

 

 

apelo a Krishna, a Buda

a Baphomet e a Shiva

mas, oh! minha fé miúda. . .

a nenhum deles cativa

 

 

ai! não há Deus que me acuda

e nenhum Santo me livra

dessa impaciência aguda

gorda, parruda e nociva

 

 

se evoco Rilke ou Neruda

seus espíritos esquivos

veem a  minha face ossuda

e evolam-se . . .  incompassivos

 

 

nenhum Arcanjo me ajuda

nenhum Orixá me ampara

e a inquietude não sara. . .

é cada vez mais graúda

 

 

nem a poesia desnuda

que eu acolho em mim, repara

que a sorte . . . não me saúda

não me sorri . . . nem me encara

 

 

dai-me ayahuasca, santo Daime!

figas . . . ou ramos de arruda!

livrai-me Tupã, salvai-me

desta desdita absurda!

 

 

Santa Rita, Santa Clara

Santo Expedito, São Judas

não peço Graças polpudas

só quero . . . ficar Odara

 

 

ser mais que um bardo barato

ser um poeta benquisto

um popular literato. . .

(haverá pecado nisto)?

 

 

São Pedro! São Benedito!

São Francisco! São Tomé!

confesso-me por escrito!!!

(há maior prova de fé)???

 

 

não mereço um veredito

mais favorável . . .  ué?

ou nasci pra ser maldito

feio . . .  e pobre de marré?

 

 

podem dar um jeito nisto. . .

não é tão difícil. . . É?

Falem lá com Jesus Cristo

Mãe Maria . . .   ou pai José!

 

 

ninguém no reino divino

quereria apiedar-se

de um poetinha mofino

mal aprumado e sem classe?

 

 

versejo desde menino. . .

pelejo pra não pecar. . .

será que não mereço outro destino         

que este de rimar . . . só com o azar??? 

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENQUANTO TUDO PASSA

 tudo passa

ENQUANTO TUDO PASSA

 

Mesmo que meus estandartes

agora, sejam farrapos

e, de minhas esperanças

restem apenas fiapos

 

Eu ainda cuspo fogo . . .  

Recuso-me a engolir sapos

 

E, com ‘vivos e defuntos’

tenho mil e um assuntos

para muitos, muitos papos

 

 

Fora da lei (do silencio)

tornei-me  imune às mordaças!

Não temo os ‘monstros sagrados’

e nem tremo ante ameaças

 

Versejo em línguas de fogo

(eu não esculpo fumaças)

 

 

Minha Lira é carne viva!

Palavra intrépida, ativa. . .

(e não ração para traças)

 

 

Que pena eu tenho dos bobos

‘lobos maus’ que, com trapaças

tentam causar ‘tempestades’

mas,  causam ‘chuvas esparsas’

 

 

(das que não chovem nem molham)

Reis do embuste! fãs da farsa!

Só rosnam . . .  uivam . . .  me olham

sonham . . .  a minha desgraça   

 

 

Mas, nenhuma névoa embaça

meu olho . . .  de furacão!

E, ainda não há rima que eu não faça

pois, nada esgarça a  minha inspiração

 

 

Sou brando como uma garça!

Mais fogoso que um dragão!

E o pão . . .   que o diabo amassa

eu como . . .  com requeijão!

 

 

Caçador nenhum me caça!

Voo alto e de pés no chão . . .

‘nem aí’ pra Lira lassa

dos ‘velhacos’ de plantão!

 

 

Levo no peito (e na raça)

fé na malandra escansão!

Tomo chá, tomo cachaça

mas, juízo . . . tomo não!

 

 

Pois, desajuizado alcanço a graça

de enlouquecer à salvo de ser são. . .

 

Verso demais, porém, não verso em vão

e permaneço . . . enquanto tudo passa.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.