AVESSO

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AVESSO

 

Perdoai-me Senhor . . . pois, eu sei o que faço

nas versos que teço

nas rimas que traço

 

 

me esmero e amanheço

vencendo o cansaço

nos versos que meço

nas rimas que caço. . .

 

 

sei bem dos limites que ousado ultrapasso

nos degraus que desço. . .

nesses voos que alço. . .

 

 

eu ‘cresço e apareço’

depois . . . me desfaço

nos versos que teço

nas rimas que traço

 

 

se eu erro, Pai . . . confesso e reconheço. . .

e, se me ‘disfarço’

é porque careço

 

 

desse manto espesso

que amo e amasso. . .

nos versos que meço

nas rimas que caço

 

 

no entanto, não peço mais do que mereço

e quando fracasso. . .

também me embeveço

 

 

Pai! Não tenho preço. . .

e de graça eu grasso

nas rimas que teço

nos versos que traço

 

 

sou moço travesso . . .  castiço e devasso. . .

com desembaraço

me exibo ao avesso

 

 

viçoso . . .   pereço

morrendo .. .   renasço

nos versos que meço

nas rimas que caço

 

 

e, queira ou não queira . . .  sou o que pareço. . .

um ‘manso possesso’. . .

um ‘excesso escasso’. . .

 

 

desde o meu  começo

eu . . .  por mim me passo. . .

nos versos que teço

nas rimas que traço

 

 

perdoai-me oh Pai! Quase sempre esqueço. . .

sou ave de gesso. . .

não de pedra ou aço

 

 

porém, me arremesso

no abismo . . . no espaço

dos versos que meço

das rimas que caço

 

 

e me despedaço. . .

e desapareço. . .

já lasso e defesso

perdendo o compasso

 

 

 

 

das rimas que teço  . . . dos versos que traço

mas, não me amordaço. . .

eu nunca emudeço

 

 

padeço . .  enlouqueço. . .

e sangro e me esgarço

nos versos que teço

nas rimas que traço

 

 

perdoai-me, oh Pai, mas eu sei o que faço

eu sei o que faço!

eu sei o que faço!

 

 

ai!  desobedeço Vossas leis . . . e abraço

as que eu mesmo teço. . .

as que eu mesmo traço. . .

 

 

qual manso possesso

castiço e devasso

nos versos que meço. . .

nas rimas que traço. . .

 

 

nesses voos que alço. . .

nos degraus que desço. . .

verdadeiro e falso. . .

desde o meu começo.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: RENÉ MAGRITTE

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O ANJO HEREGE

heregeO ANJO HEREGE

 

O anjo herege abomina

o êxtase do devoto

 

Faz anotações

Rumina

Transpira

Tira uma foto

 

 

Bola um plano, à surdina

Tenta um controle remoto

Morde a língua, se alucina

Treme, causa um terremoto

 

 

E o devoto nem se abala. . .

Segue ‘lépido e fagueiro’

tão intrépido e trigueiro                       

quanto um romeiro de Cícero. . .

 

 

O anjo herege espia irado

gemendo, bege de raiva

rangendo os dentes, urrando

e enfim, se desencoraja

 

 

Desiste

o pobre-diabo

soltando um silvo de naja

 

e rasteja

para longe. . .

onde haja fé que não aja

 

 

Talvez vá tentar um monge

jovem e de ‘carne fraca’

no Tibete ou no Camboja. . .

Quem sabe uma freira, em Praga?

 

 

— Que inferno! pensa consigo

Tantos incautos no mundo

e fui perder o meu dia

com o devoto da Poesia. . .

 

E se evola

furibundo.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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HINO OFENSIVO

hino3

HINO OFENSIVO

 

converso com o verso

que é pra ver se fico

como versifico 

-menos controverso-

 

 

soo subversivo

vaiando o sucesso

do hino ofensivo

que ovaciona o excesso

 

 

de mediocridade

abusiva e  vasta

servida à vontade

na “festa nefasta”

 

 

ora, o que me resta?

ser ‘besta que pasta’

ou ser quem contesta

e grita que basta?

 

 

se o Pai não afasta

de mim esse cálice

berro feito entusiasta  

desfazendo o que é disfarce!

 

 

ah! me ame ou me ameace

seguirei sendo quem sou. . .

mesmo que o Cão me amordace

meu brado já ressoou!

 

 

todo dia o sol renasce

(mesmo sem nunca morrer)

ai! me apunhale ou me abrace

não tenho nada a temer!

 

quem tem pra dar deve dar-se. . .

quem não tem nada a dizer

é que devia calar-se

(ou nunca mais escrever)!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUPERLUA

super6SUPERLUA

 

ontem, fui olhar a lua. . .

deslumbrei-me quando a vi

valsei como quem flutua

uivei em fá, ré e mi

 

 

e até declamei Pessoa. . .

mas a lua nem ligou

me olhou como quem caçoa

de um tolo . . . nem suspirou

 

 

não estava nem aí

pro meu

romântico show. . .

 

 

ficou lá

cheia de si. . .

simplesmente . . . me esnobou.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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SAMBA ATRAVESSADO

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 SAMBA ATRAVESSADO

 

dentre tantos outros povos

dentre tantos outros povos

o meu povo, a minha gente

 

doravante seguirá pisando em ovos. . .

seguirá pisando em ovos

de serpente

 

meu  ‘país do carnaval’ está fadado

a dançar ao som de um fado

tristemente. . .

 

tendo um samba . . .   na garganta atravessado

tendo um samba na garganta atravessado

e ‘’um enorme passado

pela frente’’.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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O CEGO CLARIVIDENTE II

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O CEGO CLARIVIDENTE II

 

desde quando fiquei cego de repente

tornei-me clarividente. . .

(há males que vem pro bem)!

 

 

hoje, enxergo muito mais que antigamente

e não creio cegamente

nas mentiras de ninguém. . .

 

 

achei no escuro a luz tremeluzente

que me guia mansamente

para lá do mais além. . .

 

 

por fim, tornei-me um homem diferente:

o que meus olhos não veem

o meu coração pressente!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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