INEVITÁVEL

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INEVITÁVEL

 

Coloquei palavras na boca da noite

Sussurrei mentiras na orelha dos livros

Conversei com plantas, retratos, paredes. . .

e roubei de Deus uns dons subversivos

 

 

Caminhei nas nuvens com meus pés de vento

Bebi oceanos, fumei nevoeiros

e desapontei ponteiros de relógio

por matar meu tempo . . . com versos certeiros

 

 

Não ganhei o dia, nem movi o monte

mas juro . . . delirei a cada letra

aliterando as linhas do horizonte. . .

rimando a luz até domar o medo. . .

 

 

Olhei os lírios do campo

Contei estrelas, segredos

Cortei pulsos, fios e dedos. . .

Errei, conheci verdades. . .

 

 

Caí do céu noutro mundo

Vi pra crer, quase não cri . . .

Ousei escapulir . . . Pulei um muro

Revi meu passado, previ meu futuro

e dei-me de presente

um ‘Bem Maior’

 

 

Fui muitas vezes dessa pra melhor. . .

-garanto que ser eu nunca foi fácil-

 

fui sempre o ‘menos lúcido’ no hospício

e nunca o ‘mais benquisto’ no palácio. . .

 

fui fundo, fiz chover, salvei uns santos

e devo admitir . . . nem foram tantos

 

mas, tudo bem

-ninguém

merece

a Graça-

 

Passei por tudo e sei que tudo passa. . .

Não pedirei perdão e nem licença. . .

A recompensa é sempre dispensável

Indispensável mesmo é a esperança

 

 

Eu imagino o inimaginável

e em paz a minha paz nunca descansa. . .

‘’Quando eu crescer, eu quero ser criança’’

Serei. . .

               Eu sei. . .

                                 É certo . . .  e inevitável.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

FOTOGRAFIA BY MICHAEL PECK

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

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CANTIGA DE UM AMOR ITINERANTE

itinerante CANTIGA DE UM AMOR ITINERANTE

 

o Sol não sai

do céu

nem quando é noite. . .

 

 

meu bem não sai

de mim

nem quando vai

 

 

lá pra Dubai

Dublin

Belo Horizonte

 

 

Londrina

Tocantins

ou Paraguai. . .

 

 

amor presente

ausente

itinerante

 

 

viajante

intermitente. . .

ai, ai, ai !

 

 

ele se vai

pra outro

continente

 

 

fica distante

e mesmo assim

não sai

 

 

de mim . . . vai a Pequim

Rússia

e Nigéria

 

 

de Bali

pra Sibéria

e Bombaim

 

 

da China

pro Peru

ou pra Bruxelas

 

 

e de Cabul

pra

Quixeramobim

 

 

sai de Xangai

e vai

à Normandia

 

 

dorme em Cotia

acorda

no Uruguai

 

 

almoça

em Istambul

janta na Hungria

 

 

de Aracaju

se manda

pra La Paz

 

 

passa em Berlim

me compra

alguns postais

 

 

me liga de Cascais

diz que está

bem. . .

 

 

que tem saudade

e pensa em mim

demais. . .

 

 

mas inda vai

ao Congo

e mais além

 

 

ao Cairo, ao Equador. . .

Madri

também. . .

 

 

depois torna á Belém

e (até

que enfim)

 

 

volta pra mim

no fim do mês

que vem. . .

 

 

se não tiver

que ir

á Medellín

 

 

e eu. . .

que até aqui

sobrevivi

 

 

suspiro aliviada

e digo

amém

 

 

como se ele

estivesse

logo ali. . .

 

 

a três

ou quatro quarteirões

daqui

 

 

já prestes

a chegar.

 

Sonhar

faz bem. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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O HOMEM DA COBRA

da-cobra1O HOMEM DA COBRA

 

Falou da crise, da seca, de amor, do vírus da gripe

da baixa renda per capta da capital do Sergipe

falou das FARC, da Flip, do Jeep Gran Cherokee

do Leonardo Di Caprio, do Lula e do Bruce Lee

 

 

Falou grego, italiano, inglês, francês, mandarim

de astronomia, do clima, bem do Tom e mal do Tim

Falou de Roma, fez rima, resumo de minha obra

de minha biografia, do que me falta e me sobra

 

 

Quase a língua dele dobra! Falou até ficar rouco!

Sobre o Cão, Deus e o mundo!

De um tudo e de mais um pouco

Mais do que o ‘homem da cobra’, falou, falou e falou!

E depois, fim. Foi-se embora

Nem pra trás o cabra olhou

 

 

Eu fiquei lá, ‘boquiaberto’ (só que de boca fechada)

Rapaz! O ‘homi’ é ‘experto’ . . .

mas não diz nada com nada

É o tipo que fala muito por não ter nada a dizer. . .

Por isso, quase não falo. . .

em vez de falar me calo

e solto o verbo a escrever.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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AMADOR

amador-7

AMADOR

 

Sim, Melissa, eu amo blues

pingue- pongue, poesia

seios, ombros, olhos nus

cajus e filosofia

 

 

amo araras, urubus

colibris, quatis, cotias

iogurte, arroz, cuscuz

meia-luz e estripulias

 

 

amo a tua anatomia

teu calor, mandacarus

Millôr, Luiz Melodia

Caetano, Chico, Jesus

 

 

Sinatra, democracia

Nostradamus, tuiuiús

cuba-libre, acrobacia

Che Guevara e baiacus

 

 

cachaça, cana-caiana

tabas, ocas e tabus

lulas, ostras, Dilma Vana

suçuaranas, tatus

 

 

Elvis, Nelson Cavaquinho

Kiss, Paulinho da Viola

Jamelão, Zé Bonitinho

Chopin, Bandeira e Cartola

 

 

Mussum, Martinho da Vila

Gilberto Gil, Gal, Cazuza

Di Cavalcanti, Tarsila

Kid Vinil e Vanusa

 

 

amo o Piu-Piu e o Frajola

girafas e jacarés

fruta-pão e carambola

xote, baião, mambo e jazz

 

 

amo tucanos, petistas

anarquistas e faquires

amo ateus, politeístas

tempestades e arco-íris

 

 

sou de paz, não quero guerra

‘‘na terra como no céu’’

amo quem ama e quem erra

-o Papa, Obama, Fidel-

 

 

amo o silêncio , a folia

samba, choro e rock’n’ roll. . .

Melissa, a monotonia

nem sequer sabe quem sou!

 

 

amo a Tereza do morro

e aquela de Calcutá

a Maria do Socorro

e as de Portugal, ó pá!

 

 

Amo Dercy, Iracema

Madalena, Iemanjá

as garotas de Ipanema

e as de Guaratinguetá

 

 

amo ópera, cinema

malabares, bambolês

pororoca, piracema

vatapá e molho inglês

 

 

amo amar, Melissa, e amo

futebol, balé, xadrez

amo até como reclamo

das coisas de quando em vez. . .

 

 

amo . . . que amar vale a pena

sem amor a vida é murcha

amo-te, loira, morena

linda ou com cara de bruxa

 

 

amo e quero porque quero

amar mais do que demais

acima e abaixo de zero

assim, assado e assaz

 

 

amo o malandro, o otário

a igualdade, a justiça

o vigarista, o vigário

o panda e o bicho-preguiça

 

 

não sei um terço da missa

nem sei a Bíblia de cor. . .

eu só sei amar, Melissa

cada vez mais e melhor

 

 

amo Elis e Belchior

Xuxa e Machado de Assis

John Wayne e Jorge Bem Jor

tu e quem nunca me quis

 

 

amo muito e mais um pouco

o inimigo . . . e o meu irmão

e ah! se por amar sou louco

Deus me livre de ser são!

 

 

pois, ai de quem, ai de quem

tem mas não tem coração. . .

de quem cultiva o desdém. . .

de quem crê que o amor é vão. . .

 

 

Eu? Eu só faço questão

de amar . . . e fazer o bem

de tudo o mais abro mão. . .

não sei odiar ninguém

 

 

nem quero aprender também

que ódio . . . não é solução

razão? todo mundo tem. . .

(só quem não ama é que não)

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE; MARC CHAGALL

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SÓ DEPOIS

 

VOTO1

SÓ DEPOIS. . .

 

Sim, Serafim . . . quem é, é

Quem não é não é também. . .

mas, em meio a esse banzé

como saber quem é quem?

 

 

Quem tá do lado do povo?

Quem é ‘amigo do rei’?

Eu condeno? Eu absolvo?

Diz aí, o que farei?

 

 

O meu pensar anda torvo. . .

Tem juiz fora da lei?

Pode pombo virar corvo?

Quem sabe, sabe . . . Eu não sei

 

 

Sim, Serafim quem é, é

mas, quem é mau faz o bem?

Tem malandro que é Mané?

Sim ou não? Tem ou não tem?

 

 

Em quem? Em quem ‘botar fé’?

Como saber quem é quem?

Eu vou é ‘ tirar o pé’. . .

Não voto mais em ninguém

 

 

Só depois que a lava jato

terminar, eu digo amém

Bem. . . se sobrar candidato. . .

Aí sim, escolho alguém.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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A LUTA

LUTA4

A LUTA

 

‘’Minha terra tem palmeiras

onde canta o sabiá’’

mas tem também serpentes traiçoeiras

e um ‘defectível carcará’

 

 

Tem clãs de criaturas tão rasteiras

que nem sequer consigo nomear. . .

mas tem também guerreiros e guerreiras

munidos de coragem pra lutar

 

 

As praças e as ruas são trincheiras

e a nossa voz ninguém pode calar. . .

A luta, brasileiros, brasileiras

apenas acabou . . . de começar!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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CRUZ-CREDO

cruz credo

CRUZ -CREDO

 

São tantos credos e cruzes

‘Jesuses’ crucificados

 

Ave-maria!

Avestruzes!

São tantos ‘santos pecados’!

 

Rogai por nós, Senadores!

Pra sempre sejais louvados!

 

e os anjos do Senhor

-trabalhadores-

por certo, acabarão terceirizados

e muito, muito mal remunerados. . .

-a não ser que se elejam vereadores-

 

 

E o Deus, o Deus dos pobres e coitados

render-se-á, sem dúvida, aos credores. . .

 

 

Ah! Quem nos livrará dos opressores?

Satã ,Cunha, Renan e associados?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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