POEMA SEM NOME

CAIS NOTURNO ANTONIO bANDEIRA

POEMA SEM NOME

 

meus olhos abarrotados de silêncios e tumultos

atravessam madrugadas descompassando os minutos

vigiando os viadutos, o horizonte ,os vigilantes

e o negror que abriga vultos e estrelas itinerantes

 

 

a verdade arranha céus e a garganta de quem cala. . .

minha boca escala versos e as paredes desta sala

que transpiram devaneios e solidões comoventes

cravejadas de mistérios e rimas incandescentes

 

 

meus pés de vento tropeçam nas nuvens do meu carpete

no bibelô telepata, nos ímãs da geladeira

na samambaia sonâmbula, no pó da namoradeira

na cristaleira, no teto e no abajur que derrete

 

 

sigo assim, insone e turvo, a ver navios e fantasmas

no topo dos edifícios e adentro dessas gavetas

repletas de precipícios e asas de borboletas

enquanto a cidade ronca dissolvendo-se em miasmas

 

 

o Sol nascerá do espelho, varará as persianas

saltará pela janela do quinquagésimo andar

cairá no céu sem medo de iluminar as insanas

ruas sem fim que naufragam na metrópole sem mar

 

 

mas eu não . . . eu vou ficar sob as flores do edredom

esperando o Armagedom, esperando o sono vir

fechar meus olhos e abrir a porta de um sonho bom

no qual eu, fora do tom, possa afinal existir

 

 

dizendo luz, lendo som . . . mudo e repleto de som

mudo e repleto de som como os versos que escrevi

nos espelhos com batom, nas paredes com crayon

à mão em papel crepom e à giz no chão . . . que perdi.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ‘CAIS NOTURNO’ de ANTÔNIO BANDEIRA (1962)

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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