MIRELLA E O PRÍNCIPE

MIRELLAMIRELLA E O PRÍNCIPE

 

o príncipe dela não manda notícias

há quase dois anos. . .

e ela na clausura, tolhendo malícias

e tecendo planos

mantendo-se ‘pura’, guardando delícias

e anseios insanos  

ela se abandona , suprime ternuras

coleciona enganos. . .

 

 

quisera ela ouvisse meu verso e sorrisse

e abrisse a janela. . .

quem dera cansasse da espera e ousasse

livrar-se da cela. . .

quem dera quisesse se dar e me desse

todo amor que há nela

e me namorasse como quem renasce

das cinzas . . . quem dera

 

 

quisera ela visse, soubesse e sentisse

que sou todo dela

que não quero Helena, Joana ou Clarice

mas somente ela. . .

ah se ela deixasse . . . se me permitisse

tocá-la . . . Mirella!

Eu transformaria seu inverno triste

em longa primavera. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NA TERRA COMO NO CÉU

na terra3

NA TERRA COMO NO CÉU

 

Silenciei sua sala de paredes amarelas

e cortinas cor de rosa

e gerânios nas janelas. . .

 

 

Quando falei ‘eu te amo’

bem baixinho em seu ouvido. . .

Ah! Que silêncio profundo!

Deus! Que silêncio comprido!

 

 

Durante quatro segundos

a Terra inteira parou

No nosso e nos outros mundos

ninguém sequer respirou

 

 

E quando enfim você disse

suavemente – Eu também!

não houve quem não ouvisse

os anjos dizendo amém!

 

 

Dei-lhe um beijo apaixonado

pus em seu dedo um anel

e a paz reinou soberana

na terra como no céu          

 

 

mas, dali da sua sala de paredes amarelas

e cortinas cor de rosa

e gerânios nas janelas

 

 

a paz saiu de fininho

só pra deixar-nos á sós. . .

(foi juntar-se aos passarinhos

a cantar por nós, por nós)!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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METAMORFOSES

meta3METAMORFOSES

 

Transformam-se os carinhos em espinhos

Transformam-se as promessas em mentiras

Transformam-se em abismos os caminhos

Transforma-se o amor num mar de iras

 

 

Transforma-se o desejo em aversão

Transformam-se os tesouros em refugos

Transforma-se em distância a união

Transformam-se os amantes em verdugos

 

 

Ninguém pode evitar metamorfoses

Ninguém pode escapar às mutações. . .

Transformam-se as paixões em overdoses

de dor . . . dilacerando os corações

 

 

Rogamos que o amor seja ‘infinito’

e damo-nos inteiros à ilusão. . .

Transforma-se o sorriso em pranto aflito

e o sonho, tão bonito, em solidão.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -. 

 

 

SEM EPITÁFIO

epitáfio1

SEM EPITÁFIO

 

é fácil falar difícil

no palanque, lá no alto

na campanha, no comício

no Palácio do Planalto

 

sim é muito, muito fácil

é fácil falar difícil

 

enquanto o Sol se põe

no precipício

e a esperança jaz

(sem epitáfio).

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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QUEM JULGARÁ?

duvida5QUEM JULGARÁ?

 

Será o início do fim?

Esta é ‘a crise das crises’?

‘Tragédia tupiniquim’?

    Quem julgará os juízes?

 

 

Os fora e acima da lei

será Deus quem julgará?

Tu não sabes, eu não sei. . .

    Será que sabe o Jucá?

 

 

Ah! Terão ‘finais felizes’

as histórias ‘mal contadas’

sobre ‘crimes e deslizes’

    nas ‘delações premiadas’?

 

 

Quem julgará os juízes?

Quem punirá o Supremo?

Ai, ai. . . Se tu souberes, não me avises

    que só de imaginar, inteiro tremo. . .

 

 

Que as chagas nunca sejam cicatrizes

Que as chagas nunca sejam cicatrizes

Que as chagas nunca sejam cicatrizes. . .

    é isso, caro amigo o que mais temo.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RUBEDO

 

RUBEDO

RUBEDO

 

raio

debaixo

de chuva

 

 

rio

debaixo

de Sol

 

 

no vinho

adivinho

a uva

 

 

na treva

invento

o farol

 

 

minh’alma

é nuvem

e árvore

 

 

é água

e pedra

de sal

 

 

é fogo

fumaça

e mármore

 

 

início

e ponto

final

 

 

 

na reta

prevejo

a curva

 

 

(acho

Deus

num rouxinol). . .

 

 

minha vida

curta

e turva

 

 

furta a cor

de um

arrebol. . .

 

 

ela é noiva . . . ela é viúva

e ela uiva

em si bemol

 

 

no meu

silêncio . . .

ela uiva

 

 

quando rio

sob

a chuva

 

 

quando raio

sob

o Sol.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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RIO DE JANEIRO A JANEIRO

DCF 1.0

 

RIO DE JANEIRO A JANEIRO

 

rio de manhã

rio de tarde

rio de noite

rio até de madrugada

rio de tudo e rio de nada

rio e rio

o tempo inteiro. . .

 

 

rio de janeiro a janeiro

rio de poesias e prosas

rio nu . . .  no teu mar de rosas

rio por último e primeiro. . .

 

 

rio antes e depois

do calor , do calafrio

rio de mim

rio de nós dois

rio do mar

e rio do rio. . .

 

 

rio até me derramar

de amar o teu corpo esguio

rio até meu eu rimar

com teu doido desvario

 

 

rio

sorrio

e sou rio

correndo escorregadio

pelas curvas perigosas

do teu leito luzidio. . .

 

 

nele rolo, nele deito

satisfeito e sem fastio

nele transbordo, sou rio

de águas loucas, caudalosas

 

 

vazo, extravaso, esvazio

meu rio de chamas aquosas. . .

dentro do teu mar de rosas. . .

entre teus lábios . . .  macios.

 

PAULO MIRANDA BARRETO 14/06/2015

 

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

FICO

DE POETA7

 FICO

I

guarde bem suas ‘verdades’

não quero mesmo sabe-las. . .

se a sua língua esconde claridades

a minha . . . quer tão só dizer estrelas”.

 

II

vejo poesia na fila do banco

no papel em branco

na cor do crepúsculo

 

 

num frívolo elogio, num solavanco

no salto de um tamanco, num minúsculo

versículo da Bíblia , num opúsculo

no Sol luzindo, em meu entusiasmo

no seu sarcasmo infindo, num orgasmo

ou mesmo no espasmo de algum músculo. . .

 

 

eu vejo poesia no quiabo

no rabo de um foguete, na apatia

na cruz, na eucaristia, no diabo

no que não devo e até no que devia. . .

 

 

num percevejo eu vejo poesia!

na bula do remédio tarja preta!

no bêbado bailar da borboleta!

na letra enluarada à luz do dia. . .

 

 

na luta, na labuta e na folia

no cáustico cantar do desencanto

no olhar da prostituta e no do santo

no riso e no pranto da Virgem Maria

 

 

a vejo em tudo e tanto em todo canto

que até no que converso vejo versos. . .

à flor da minha pele ou submersos

em mim, no meu bocejo e em meu espanto     

 

 

e ah! se eu contrario o Acadêmico

não pedirei desculpas nem licença. . .

Nosso Senhor Jesus era polêmico

também . . . (isso fez toda a diferença)!

 

 

você não pensa assim? lamento muito

mas isso não dilui meu sentimento

nem desmotiva o intento . . . o meu intuito

de ser todo poesia (cem por cento)

 

 

vivo de brisa, e sei . . . meus pés de vento

não dão passos em falso, são precisos!

conduzem as verdades que eu invento

pra fora dos ‘horrendos paraísos’

 

 

pra longe de ‘exigentes exegetas’

e do rigor feroz dos ‘santos críticos’. . .

não louvo os ‘arquitetos paralíticos’

e a pompa hostil de mil ‘falsos poetas’ . . .

 

 

 

não quero pódio, topo e nem altar

da minha ‘imperfeição’ faço virtude. . .

nenhuma rejeição me desilude

nem pode a ovação me deslumbrar. . .

 

 

e se você espera, enfim, que eu mude

ou que emudeça . . . esqueça.  Eu vou ficar!

Nasci pra versejar (que Deus lhe ajude). . .

Você e os seus vão ter que me aturar!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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SEU CABRA!

CABRA2 MULATA MODELO TÂNIA AZAVEDO

SEU CABRA!

 

Meu amor é bem mambembe . . . Ela bebe, joga, fuma

e, sem firula nenhuma

diz hula hula e uh là là!

 

 

lelé que é, escreve e lê e ulula

e num só pé pula-pula

diz que sim e tá que tá

 

 

dança mambo e salsa e samba

vende picolé, muamba

Avon, canjica e cajá

 

 

já falei que dança rumba?

toca trompete e zabumba!

ama frevo e boi- bumbá!

 

 

tem fé em deus, em mim, vai na macumba

é de paz, não faz quizumba

pouco tem mas, muito dá!

 

 

não há mulher melhor no remelexo

moço, é de cair o queixo!

eu não posso me queixar. . .

 

 

com ela eu não me abuso e nem me avexo

o que ela pedir eu deixo

eu faço o que ela mandar!

 

 

menino! ela não tomba e nem descamba

não me trai, não me esculhamba

tromba um trem pra me agradar!

 

 

me ama de verdade . . . e pra caramba!

anda até na corda bamba

comigo, se precisar!

 

 

por ela eu viro bicho, tiro a bota

fico nu, dou cambalhota

na brasa sem nem pensar!

 

 

quem olha, logo vê, de pronto nota

o quanto a gente se gosta

ninguém pode contestar

 

 

então, vou ser bem claro com seu moço:

acalme o seu alvoroço

e apague esse facho já!

 

 

ou vou lhe sacudir dentro dum poço

e arrancar pelo pescoço

suas calças de paxá

 

 

onde é que já se viu tanta ousadia!

bulir com minha Maria????

seu cabra . . . passe pra lá!

 

 

vá se engraçar em outra freguesia

e olhe, por garantia

melhor nunca mais voltar. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ‘MULATA MODELO’ de TÂNIA AZAVEDO (2013)

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SERVOS INFIÉIS

servos SERVOS INFIÉIS

 

Quantos filhos do Senhor

penam nos subterrâneos

dos abismos sociais?

E quantos outros se afogam

em mares mediterrâneos

furiosos e abissais?

 

 

Quantos vagam sem destino

fugindo dos assassinos                                                        

nessas guerras infernais?

Mulheres, homens, meninos . . .  

‘ilegais’ e ‘clandestinos’

sem pão, esperança ou  paz!

 

 

E enquanto os anjos deliram

de pavor, urrando ais

o mundo vê na tv

o mundo lê nos jornais

e nada faz, a não ser

tecer lamentos banais

e ouvir o Papa dizer

que ‘todos somos iguais’. . .

 

 

Mas, ai! nos mares bravios

e nos abismos sombrios

e nas fronteiras cruéis

seres humanos, inúmeros

velem menos do que números

ou carimbos em papéis. . .

 

 

Para esses, a igualdade

a justiça e a liberdade

são sonhos quase impossíveis. . .

E os ‘’Grandes’ da humanidade

ante a tanta iniquidade

tomam . . .  ‘medidas cabíveis’

 

 

Descabidas na verdade

Nuas de boa vontade

Brandas, vãs, paliativas. . .

 

Simulacros de bondade

pra atrair notoriedade

flashes, aplausos e vivas. . .

 

 

Lá, nos abismos sombrios

lá, pelos mares bravios

pelas fronteiras cruéis

tudo segue como antes

entre soluções distantes

e inalcançáveis lauréis. . .

 

 

Aos corações humanos, tão vazios

de amor (mas não de ódios doentios)

importam castas, crenças e cartéis. . .

 

 

E a paz do mundo jaz a ver navios. . .

E os lábios do Poder calam-se frios. . .

E Deus nos vê quais servos infiéis. . .

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGEM: FOTOGRAFIA DE CAROL GUZY

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