SOBRE NÉVOAS E RESQUÍCIOS

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SOBRE NÉVOAS E RESQUÍCIOS

 

Quem dera resgatar minhas audácias. . .

e a sua ‘elegante astúcia’. . .  

Mas, em nossa rua não há mais acácias

e nem tampouco amor . . . Maria Lúcia  

 

 

Através dos anos cavei precipícios. . .

Indícios apontam que inventei distâncias. . .

que troquei delícias por mil sacrifícios

e preciosidades por desimportâncias

 

 

Lembro com saudade nossas peripécias

nas tardes em que o Sol dourava os ócios. . .

Até nossa malícia era inocência. . .

Mas hoje, nosso mundo é o ‘dos negócios’

 

 

A fúlgida euforia fez-se inércia

Você verteu-se em ‘musa da falácia’

e eu . . . tornei-me um  ‘mercador da Pérsia’

 revendendo alívio a donos de farmácia. . .

 

 

E aqueles paraísos fictícios  

tão nossos . . . em seu todo e nas minúcias

sumiram-se entre névoas de suplícios

e ardis que o tempo urdiu com vis argúcias

 

 

Os nossos ‘dons’ perderam-se entre exícios. . .

Já nem sonhamos mais, Maria Lúcia. . .

Da infância só restaram-nos resquícios

e o olhar sem luz dos bichos de pelúcia.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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PARA NUVENS E HORIZONTES

HORIZONTES3PARA NUVENS E HORIZONTES

 

não . . . não farei poesia pra enviesar horizontes

pra despetalar tulipas

ou ninar rinocerontes

 

 

mas pra enfeitar nuvens brancas

com andorinhas e pipas. . .

e transformar frases francas

em arco-íris e chispas            

 

 

teço versos renitentes

pra enternecer os poentes. . .

e não pra mover os montes

        

 

não quero encantar serpentes

nem derrotar oponentes

nem deslumbrar brutamontes

 

 

escrevo versos somente

para quem sente e consente

que sentimentos são pontes

 

 

capazes de ligar os continentes

bem como corações, almas e mentes

á ideais de luz e amor insontes. . .

 

 

quero dizer estrelas reluzentes

luares, vaga-lumes, sóis nascentes

e rabiscar . . . nas linhas do horizonte

 

 

uns versos meus, com letras atraentes. . .

com rimas consoantes e toantes

que encantem e consolem minha gente. . .

(ou façam levitar uns elefantes)!

 

 

dispenso o ouro, a prata e os diamantes. . .

só quero a eternidade dos instantes

e a estima dos que amo . . . ardentemente.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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PELOS ARES

alado odilon RedonPELOS ARES

 

Eu voo que voo pelos ares

leve . . .  apesar dos pesares

dos poréns, das más notícias

injustiças e  desaires

 

 

Voo além . . .  por sobre os mares

por céus interestelares

bem pra lá das vis malícias

e das audácias vulgares. . .

 

 

Voo pra longe das polícias

dos juízes, dos azares

das verdades fictícias

e mentiras cavalares

 

 

Voo pra longe das sevícias

das sordícias militares

das ‘elites’ vitalícias

dos ‘anti-heróis populares’

 

 

Vou poetizar delícias

luzes , coisas salutares

amores, curas, carícias

paixões, paisagens lunares. . .

 

 

Vou que vou . . .  Voo pelos ares

da minha imaginação

em pés de ventos solares

de asa delta, de balão

 

 

Voo de á pé, voo de avião

em busca de novos ares

voo com Deus no coração

Livre . . . apesar dos pesares.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ”HOMEM ALADO” de ODILON  REDON

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FIAT LUX

1097FIAT LUX

 

Se as cadeias estão cheias de inocentes

e as igrejas entupidas de culpados

 

Se o poder está na mão dos prepotentes

e os juízes erram mais que os condenados

 

 

Digo o quê? Que o nosso mundo está mudado?

Ou que no fundo, no fundo, nada muda?

 

O que é certo é certo ou certo é o errado?

Afinal . . . quem atrapalha é quem ajuda?

 

 

O amigo é o inimigo (e mora ao lado)

Ai, a paz parece mais deus nos acuda. . .

Qualquer Zé nesse banzé é “iluminado”. . .

Quero luz! ( uma que não me desiluda).

 

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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INDECISÃO

indecisão1

INDECISÃO

“A pior decisão é a indecisão”

 (Benjamin Franklin)

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Não sei se compro sapatos ou porta-retratos

(Verei no verão)

 

Não sei se adoto alguns gatos ou se mato os ratos

com as próprias mãos

 

Não sei se arrumo os ornatos ou se quebro os pratos

(perdendo a razão)

 

Não sei se me dou recatos ou aos desacatos

sem mais nem senão

 

Não sei se treino meu tato para assassinatos

ou pra salvação. . .

 

Não sei se ouço os boatos . . . ou se encaro os fatos

(Oh, indecisão)!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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QUANDO MENOS

QUANDO MENOS BOY ALONE DEBORAH PARKIN

QUANDO MENOS

 

o meu lado mais sincero

é o que insiste em duvidar. . .

mas eu não me desespero

juro . . . pode acreditar

 

 

já tenho tudo o que quero. . .

(tudo o que quero é sonhar)

 

terei o que mais espero

terei o que mais espero

quando eu menos esperar. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: BOY ALONE by DEBORAH PARKIN

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A ESFINGE

SAMPA9             

A ESFINGE

 

A minha insana cidade

convulsa , insone e sonora

pulsa e fere com sirenes

a paz que jamais vigora. . .

 

 

Soando alarmes perenes

ela excita, acende e arvora

os cios da necessidade

da rapidez, da demora

                                                        

 

Grita da boca pra fora

toda a verdade sincera

que escancara e que encarcera

coisas que o sábio ignora

 

 

Vê tudo e não vê a hora

de dissolver a quimera

que brota ao redor da espera

de quem deseja ir embora

 

 

Faz preces ás pressas

murmurando estrondos

abrindo semáforos, contorcendo esquinas

repletas de amores,

crimes hediondos

sonhos gigantescos e almas pequeninas

 

 

Começou do nada . . . e nunca mais termina

Segue iluminada pela treva afora. . .

(Sei que é dentro dela que o perigo mora

feito aranha cega a tecer minha sina)

 

 

Suando garoa, fumando neblina

e bebendo lágrimas ela comemora

séculos de glória que o tempo decora

com louros de ouro e com céus de platina

 

 

Cidade sonora, imensidão ferina. . .

nem Deus imagina quão esmagadora

é a mão pesada da sua rotina

que atordoa o Sol e a lua sonhadora

 

 

 

A minha insone cidade

vela a inocência que dorme

debaixo dos viadutos, das estrelas, das marquises

enquanto esconde riquezas

no seu coração disforme

vendendo falsas promessas . . . e alegrias infelizes

 

 

Enquanto os passos tropeçam no frio compasso das horas

ela cava um precipício entre quem pode e quem não. . .

Ri-se com dentes de ouro enquanto mastiga auroras

para cuspi-las na cara dos filhos da solidão

 

 

A minha insana cidade

sem piedade me apavora

(e ao mesmo tempo fascina)

Ela é menina e senhora. . .

 

 

Assassina e salvadora. . .

Pusilânime heroína

que me assombra . . . me ilumina

me decifra . . . e me devora!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ACABOU-SE, ALICE

1071ACABOU-SE, ALICE

 

Deixe de disse me disse

Alice . . . Vá ser feliz!

Dê cá meu falso Matisse

meus livros e meus vinis

 

 

Vá-se embora pra Recife

surfar, descascar caquis. . .

conquistar algum patife

que ature seus ‘mimimis’

 

 

Não quero falar de grife

Sou poeta! Olhe pra mim!

Não tenho dom nem cacife

pra visom, seda e cetim

 

 

Ora vá, não desperdice

o meu tempo e o seu latim

Cansei-me dessa chatice

dessa sandice sem fim

 

 

Troco ‘escargot’ por maxixe

‘foie gras ‘ por aipim

seu ‘mon dieu’ pelo meu vixe

e ‘bistrô’ por botequim

 

 

Mesmo que você me piche

cara Alice, eu sou assim

sem disfarce nem pastiche:

bardo, boêmio e chinfrim!

 

 

 

Se não gosta, que se lixe

ou ache que sou ruim. . .

E pronto acabou-se, Alice

o que era doce. É o fim!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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BANDEIRA

palhaçoBANDEIRA

 

Brava gente brasileira

mil perdões, vou dar bandeira:

Cansei dessa Nação politiqueira. . .

Agora “Vou-me embora pra Pasárgada”!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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FOME

fome5

FOME

 

barriga vazia. . .

poesia calada

na boca do estômago.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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