SOFISMA PARA INSENSATOS

CABEÇA

 

 SOFISMA PARA INSENSATOS

 

 cabeça:

coisa que pensa.

coração:

coisa que pulsa.

corpo:

coisa que padece.

alma:

coisa que só Deus.

 

 

cabeça:

coisa que quebra.

coração:

coisa que parte.

corpo :

coisa que se culpa.

alma:

coisa que só Deus.

 

 

cabeça:

pensa que quebra.

coração:

pulsa e se parte.

corpo:

padece de culpa.

alma:

que coisa! Só Deus!

 

 

coisa que cai

de cabeça

de coração, corpo

e alma.

 

 

deus:

alma sem coração?

coisa sem pé

nem cabeça?

 

 

cabeça:

coisa que culpa.

coração:

quebra-cabeça.

alma:

coisa que padece.

corpo:

coisa que só Deus.

 

 

coração:

coisa que para.

cabeça:

coisa que pira.

corpo:

coisa que transpira.

alma:

mentira de Deus?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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GIRASSÓIS NA LUA

girassois

GIRASSÓIS NA LUA

 

essa noite eu voo pra lua

plantar alguns girassóis

viver de saudade tua

morrer . . . lembrando de nós

 

 

que eu findo . . . e tu continuas

com  tua suave voz

a cantar verdades cruas

pra ninar meninos sós. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ALFRED GOCKEL MOON DANCE

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

 

QUANDO TUDO FOR SILÊNCIO

ui7QUANDO TUDO FOR SILÊNCIO

 

Desde pequeninho eu adivinho nuvens

entretenho Astros e distraio estrelas . . .

Decifrando o nada, leio mãos, vertigens

chuvas de fuligem, tardes amarelas. . .

 

 

A tecer poemas calejei meus olhos

enruguei meus sonhos

esgarcei meus céus       

 

E essas poesias . . . Deus! O que fiz delas?

Veleiros sem velas

feitos de papel

 

 

Abrindo feridas na boca da noite

segui murmurando versos que inventei  

sem rumo, sem norte, sem rosa dos ventos

sem dia de sorte, sem saber se sei. . .

 

 

Quem sabe um abismo no fim do horizonte

no fim do arco-íris, no fim da ilusão

um dia me encontre, me engula, me conte

me arraste ou me aponte noutra direção. . .

 

 

Por enquanto avanço, danço com fantasmas

falsas almas pasmas . . .  simulando espanto

Sigo, por enquanto, cavalgando lesmas

Sim! Cavalgo lesmas . . . lesmas . . .  e, no entanto

 

 

sinto que no rastro vasto que elas deixam

um ágil labirinto se desenha. . .

(Talvez seja por ele que Deus venha

buscar-me quando tudo for silêncio)

 

 

Por ora, sigo atento aos meus murmúrios

barulhos, invenções de meus ruídos

poéticos, patéticos, espúrios

escritos sobre a areia . . . e nunca lidos

 

                                                                               

E enquanto o Sol resvale em minha língua

e a lua á mingua espelhe-se em meus olhos

e a poesia em mim não seja exígua

e eu não maldiga a burla dos imbróglios

 

 

serei poeta anão no mundo enorme

dublando as madrugadas mais aflitas

escravo das palavras lidas, ditas

escritas á carvão num chão disforme. . .

 

 

Sigo desperto enquanto tudo dorme

colecionando sonhos e desditas

á espera de que um verso me transforme

em luz dentro das trevas infinitas!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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SEBASTIÃO

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SEBASTIÃO

 

Não tenho dinheiro no bolso da calça

nem também no da camisa. . .

Minha vida, seu moço, anda descalça. . .

e só pra não morrer, vivo de brisa

 

 

Não tenho dinheiro guardado no banco

(Nem aqui nem na Suíça)

De meu só tenho meu nome

meu amor . . . e fé castiça

 

Já estou pra morrer de fome

e de sede de justiça. . .

-Pra nós, seu moço, ela tarda

e é falha e cega e omissa-!

 

 

Desde menino eu batalho

nunca soube o que é preguiça. . .

Sou um motor no trabalho

-um motor que nunca enguiça-

 

Tenho a coragem e a cara

mas a covarde cobiça

de quem tem muito me para

sobre a areia movediça

 

 

O meu dinheiro é contado

é tributado, seu moço. . .

Compro o feijão, pago as contas

não sobra nada no bolso

da calça nem da camisa . . .

Do fruto do meu esforço

não sobra polpa, nem casca

nem gostinho e nem caroço

 

 

Ás vezes almoço é janta

ás vezes janta é almoço. . .

Meu suspiro é mais profundo

que o fundo fundo do poço

 

Eles com cordões de ouro

e eu com a corda no pescoço. . .

Não . . . eu não vivo de brisa. . .

Só sobrevivo, seu moço!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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VÁ PRO DIABO, CORINA!

 

CORINA16

VÁ PRO DIABO ,CORINA!

 

Você não deve, não teme

não geme sem sentir dor

não sente calor nem treme

de frio, de medo ou de amor

 

 

Não me dá razão nem beijo

não quer bombom, não quer flor

nem goiabada, nem queijo

nem festejo, nem favor

 

 

Seu coração tem arame

farpado até dizer chega

Faço o quê pra que me ame?

Diga . . . O que é que eu faço, nêga?

 

 

Fiz seresta, dei vexame

Chamei-lhe pra ver o mar

Criei má fama de infame

de tanto lhe bajular

 

 

Tive um infarto, um derrame

Quase morri de chorar

Fui morar no Suriname

Voltei, tentei me matar

 

 

“Saí na mão” com o Van Damme

tão só pra lhe impressionar

Fiz promessa, fiz o exame

do Enem. (Consegui passar)!

 

 

E você aí, parada. . .

Não quer nem saber de mim!

Não quer tudo nem quer nada!

Nem assado, nem assim!

 

Vá pra Ohio que lhe parta!

Vá pra Quixeramobim!

Vá plantar jaca em Jacarta

ou bananeira em Pequim!

 

 

Vá ser chata assim na China!

Vá tomar chuva em Dublin!

Vá torcer pela Argentina!

Vá pra bem longe de mim!

 

 

Vou casar com Maralina

Moça fina, um querubim!

Ela sim é minha sina!

Você, Corina, é ruim!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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PENUMBRAS

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PENUMBRAS

 

Varo escuro

a noite em claro

e não quero o que prefiro. . .

 

Desencontro o que procuro

porque lúcido deliro

                                       

Meu moderado exagero

erra o alvo em que não miro. . .

 

 

De esperança desespero             

e com esmero me atiro

num labirinto sincero

que minto enquanto respiro

 

                                       

Sou nada . . .  Parto do zero

e no final  sou vampiro

de mim mesmo . . . falso e vero

porque lúcido deliro

 

 

E áspero me exaspero

na inspiração que transpiro

e pela qual pago caro

pois que ao avesso me viro

 

 

para ser menos que um mero

fingidor . . .  e assim me firo       

indo acolá do que espero

sem querer o que prefiro

 

 

E demoro e me admiro

morando fora de mim

seguindo, cego e seguro

para o início do meu fim

 

 

Já se passa por futuro

meu passado . . .  e sendo assim

tanto faz se passo apuro

ou se sou feliz enfim

 

 

Entre o sim e o não, um muro

Sobre o muro um Serafim

Sombras, penumbras murmuro. . .

e insano acendo o estopim.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: VLADSTUDIO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

UTILIDADE PÚBLICA

CORAÇÃO1

UTILIDADE PÚBLICA

 

Não pise na grama

Use o corrimão

Ponha a mão na consciência

Use mais o coração

 

 

Se quem não chora não mama

Quem não ama também não!

Não engane as aparências

Use mais o coração

 

 

A vida é o melhor programa

Desligue a televisão

Leve o seu amor pra cama!

Dispare seu coração!

 

 

Tire logo o pé da lama

Lave a alma meu irmão!

Campeão é quem mais ama!

Ame mais! (de coração).

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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AURORA

AURORA1

AURORA

 

Lá vem o poeta

com suas “muletras”. . .

 

“Gaivotas abarrotam-lhe as gavetas”!

 

De lírios literais delírios brotam

E em linha reta o vento

inventa curvas. . .

 

 

Seus olhos amarrotam

sóis e chuvas

E pétalas de rosas amarelas

(que são, a olho nu, azuis estrelas

se diluindo em luas

cor de uva)

 

 

Seus lábios balbuciam

violetas

(Saúvas e saliva delas saltam)!

 

 

Os céus caem de amor

Risos não faltam!

E a humanidade inteira

será salva!

 

 

Não, não . . . Eu sei que não.

(é só poesia)

 

 

Mas Vênus será sempre estrela d’alva. . .

E toda e cada noite será dia

 

 

Até que a vida curta que me leva

retorne á longa, longa, longa treva

que é nada mais que aurora luzidia!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MAIS TOM ZÉ

 

TOM3

MAIS TOM ZÉ

 

meu tom

é mais Tom Zé

que Tom Jobim

 

 

do bojo eu fujo

a jato

eu ajo assim:

 

 

cabeça pelo pé

não pelo sim

 

 

o que é o que é

não é pra mim

 

 

eu vou além do até

pra lá do fim

 

 

eu vim por onde voo

vou de onde vim

 

 

não falo grego

inglês ou mandarim

 

 

soo bom em português

(vaso ruim)?

 

 

só quebro a regra . . . e nego a negação

vazo ruim. . .enfim

(mas soo tão bom)!

 

 

meu tom

é mais Tom Zé

que Tom Jobim

 

 

e a minha poesia

é cor

ação!

 

 

enganação sincera

Serafim!

 

 

Meu salvador Dalí

me salva são

 

 

nas mãos de deus eu li

eu li, eu li

“Verdade”

e desde então

eu só fingi

 

 

eu creio que escrevi

meu nome em vão

 

 

(na sina que assinei

não há senão)

 

 

parti me dividi

em vinho e pão

 

 

e não me endividei

nem me vendi

 

 

e nunca e para sempre

me perdi

me despedi

sem nem pedir perdão

 

 

perdão!

perdão!

perdão!

 

eu vim e vi. . .

e não venci

mas ai! tem nada não!

 

 

eu só perdi o céu

(não perco o chão)

 

e vou que vou. . .

eu voo!

(pra lá daqui).

 

PAULO MIRANDA BARRETO

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.