DOS POETAS

POETAS4

DOS POETAS

 

Os olhos instigantes dos poetas

investigam borboletas

como pudessem ler cores. . .

 

 

Devotam terno afeto aos voos algozes

das letras ,muito lentas ou velozes

que luzem nos poemas incolores

 

 

Poetas . . . são pacíficos ferozes

nascidos pra imitar metamorfoses

e pra mimetizar o ardor das dores

 

 

Senhores das palavras, cantam vozes

e encantam e acalantam os atrozes

silêncios dos amargos dissabores. . .

 

Fazem chover poesia em overdoses

e, embora sejam reis das simbioses   

desatam nós . . . e sós, morrem de amores

 

 

Seus olhos investigam borboletas

galáxias, sorrisos e sarjetas . . .

São puros . . .  nesse mundo de impostores!

 

 

São anjos? São esfinges? Fingidores?

Não sei. Quem sabe é Deus (e os exegetas)

 

 

Que importa se são santos, pecadores?

São loucos de tão sãos . . . e são poetas!

 

 

Se vão . . . desvirtuados virtuoses

salvando os vãos dos falsos salvadores. . .

 

E humanos, e imunes á hipnoses

traduzem a ilusão dos sonhadores!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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REZA DO REVÉS

DE NOVO

REZA DO REVÉS

 

Toda vez a mesma história

Esse eterno “Era uma vez”. . .

Jogo duro sem vitória

Falta grana, sobra mês

 

 

Todo mês a mesma história:

‘Calma lá! Conte até dez’!

E a minha renda irrisória

zera à mercê do revés

 

 

Tanta luta . . . E cadê glória?

Nada de lugar no pódio

Sempre, sempre a mesma história

De novo . . . o velho episódio

 

 

E aquele ditado antigo

diz que o trabalho enobrece!

Eu trabalho e pobre sigo

(só meu patrão enriquece)

 

 

Quem vem de baixo não sobe. . .

(e o meu Deus do céu não desce)!

‘Calma, filho! Não se afobe’!

‘Nada é o que parece’!

 

 

Parece que eu nado e nado

tão só pra morrer na praia. . .

Não sobra nem um trocado!

Quero aplauso e tomo vaia!

 

 

Saio de casa bem cedo

antes do Sol levantar

sem ter preguiça nem medo

todo dia, sem falhar

 

 

Na data do pagamento

pago a água, o gás, a luz

compro o feijão pro sustento

e o que me sobra é a cruz

 

 

que nas costas, vou levando

nesse infinito calvário

em que me perco ganhando

um ordenado ordinário

 

 

Toda vez, a mesma história. . .

Infinito “Era uma vez”. . .

Jogo duro, sem vitória. . .

Falta grana, sobra mês!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: “Zé do Povo” de Rafael Bordalo Pinheiro

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RUBRO DE RUBI

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RUBRO DE RUBI

 

atrás de ti me distraio  

e ensaio um ‘sair de si’. . .

 

entro em teu cio

dentro caio

te adentro e saio

de ti

 

voo e venho

bem me esvaio

pondo pingo

no teu i. . .

 

e alegre feito um domingo

beijo a flor e o colibri

 

paro quedas

paro raios

desvairo em teu frenesi. . .

pairo em aves, nuvens, naves

balões no céu

do Havaí

 

 

e entre o êxtase e o desmaio         

nos olhamos de soslaio

tão rubros quanto

rubis. . .

 

teu amor me acerta em cheio

o meu se faz teu recheio

e o mundo gira

feliz!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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MONDE,WORLD,VASTO MUNDO

vasto mundo

MONDE, WORLD, VASTO MUNDO!

(com licença de Drummond)

 

Mundo mundo vasto mundo

devastado, moribundo

mundo imundo, mundo cão

 

‘Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo’

não mudava nada não

 

Pois, desde que o mundo é mundo

tudo, no fundo no fundo

é uma questão de questão. . .

 

Mundo mundo furibundo

contra Deus e todo mundo

-Guerra! Gana! Danação!-

 

Mundo infecto, infecundo

mundo pequeno, rotundo

mundo cruel, mundo vão!

 

Ah,se o Amor não muda o mundo. . .

Ai! Se a dor não muda o mundo. . .

O que muda o mundo então?

 

Mundo mundo tremebundo

belicoso e iracundo

até quando essa aflição?

 

Paz é coisa do outro mundo?

Só nosso ódio é profundo?

Sofrer é nossa missão?

 

Mundo mundo vasto mundo

nauseado, nauseabundo

mundo raso e sem razão!

 

Quando? Quando um melhor mundo?

Só depois do fim do mundo. . .

da derradeira explosão???

 

PAULO MIRANDA BARRETO 19/11/2015

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DAS PALAVRAS AO VENTO AZUL MARINHO

17DAS PALAVRAS AO VENTO AZUL MARINHO

 

I

ergo o véu do vento

para ver de perto

o coração da brisa

 

II

vento vem de longe

a esvoaçar sozinho

vem azul marinho

e emaranha tranças

crinas de cavalo

sonhos de criança

e os versos de um poema

que adivinho

 

III

venta o vento azul marinho

acarinhando palmeiras

 

aranhando as costas largas

das infindas cordilheiras

 

contando segredos pardos

no ouvido dos bem-te-vis

 

beijando a face das águas

as flores e os colibris. . .

 

depois segue assoviando

pela madrugada adentro

suas cantigas noturnas. . .

 

e quando amanhece o dia

segue a espalhar poesia

enquanto bolina dunas. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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TROVINHA QUASE TROVÃO

trovinha

TROVINHA QUASE TROVÃO

 

Cansei de desesperar

na sua sala de espera

Se o que não foi, não será. . .

o que seria, já era!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

(Umas trovinhas de nada/2015)

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TRAPAÇAS DA PRESSA

 

trapaça

TRAPAÇAS DA PRESSA

 

Dias passam

não passeiam

tropeçam nos pés das pressas

que ultrapassam

trapaceiam

quebram pernas e promessas

 

 

Enquanto as almas possessas

de ânsia se desnorteiam

as horas, bailarinas, cambaleiam

desdobrando esquinas

em voos ás avessas

 

 

Nossos sonhos esperneiam

resmungam, pedem clemência

mas, as horas sapateiam

rangendo dentes e urgências

Ah! Exigem providências

inadiáveis, expressas

assolando as paciências

as reticências e as sestas

 

 

Eu atravesso travessas

túneis, ruas, cruzamentos

Abraço atrasos e, ás pressas

deprecio meus momentos. . .

Só aprecio as diversas

sincronias dos semáforos

sinfonias adversas

de caos, cansaços e tráfego

 

 

De soslaio, leio um verso

rabiscado nalgum muro. . .

E esvaio-me submerso

nesse trânsito que aturo

a pulso, como quem briga

obrigado á obrigação. . .

A placa de pare (amiga)

parece uma aberração

 

 

A cidade nunca para

e a gente dispara (em vão) ?

O coração nem repara

nessa insana pulsação

que nos empurra pra fora

de nós e doura a ilusão

de que a vida perde a hora

pra gente ganhar o pão.

 

PAULO MIRANDA BARRETO (11/2015)

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SALINAS

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 SALINAS

 

Mas daquele amor que “ensolarava” assombros

sobram sombras sob escombros. . .

e um paraíso em ruínas. . .

 

 

Um plúmbeo céu desaba dos teus ombros

sobre os meus e eu não vislumbro

luz alguma nas neblinas. . .

 

 

Já é somente fel o que ressumbro. . .

Visto trevas . . .  não me alumbro

O breu corrói-me as retinas

 

 

Do nome que era meu, eu nem me lembro

O teu setembro outubra o meu novembro

e eu sangro . . .  de falar línguas ferinas

 

 

Dos versos que lhe escrevo em sangue rubro

ensandecido saio e me descubro

solífugo . . . á vagar pelas salinas.

 

PAULO MIRANDA BARRETO (11/2015)

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AS CINZAS DO SOL

CINZAS DE JOEY LAWRENCE

AS CINZAS DO SOL

 

No fundo de meus olhos

a bruma dos milênios

mistura-se a luares e auroras

 

e a extintos oceanos esquecidos

e ao meu cansaço

e à cinza das demoras. . .

 

Fiz tanto amor! Fui tanto! Tantas vezes!

Domei ventos velozes

li poemas

 

fui filho, pai, irmão . . . Sou quem  agora?

Um Sol sem luz  . . .  à sombra

dos dilemas

 

Restou-me nada além do meu silêncio

 

Restou-me nada além do teu silêncio. . .

 

Restou-me nada além desse silêncio 

que paira  . . .  sobre os meus gerânios

murchos.

 

PAULO MIRANDA BARRETO (11/2015)

Fotografia de: JOEY LAWRENCE

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O BAILAR DA LABAREDA II

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O BAILAR DA LABAREDA II

 

No bailar das labaredas

imagino flamboyants

com suas flores acesas

a iluminar as manhãs

 

 

Minha voz cala certezas

e louva as dúvidas vãs. . .

-Suprir meu ser de surpresas

é o que insufla os meus afãs –

 

 

No balé das labaredas

descortino cortesãs. . .

fãs de lascivas proezas

e de mordidas maçãs

 

 

Meu silêncio lê belezas

nas entrelinhas vilãs. . .

E a minha heroica língua lambe as tesas

palavras que a loucura torna sãs!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ingarcade.com ( autoria não creditada)

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