BEIJO A FLOR

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BEIJO A FLOR

 

eu não sei de nada

eu não vejo a hora

de dar meio-dia

 

 

de não ir embora

e de bem ficar

em má companhia

 

 

eu não digo nada

da boca pra fora

no olho da rua

 

 

pela madrugada

o sol me demora

no mundo da lua

 

 

eu quero ir embora

pro fundo do mar

quero ser profundo

 

 

quero amor e amora

no mundo de amar

o mar de outro mundo

 

 

eu não sei de nada

eu não vejo agora

o que outrora eu via

 

 

voo dentro do afora

e beijo a flor que ousar

cheirar á poesia

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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A DANADA

A DANADA 1

A DANADA

 

Ela

nada

á ver

navios

naufragados

 

 

mergulhada

em desvarios

variados

 

 

no calor

de calafrios

acalorados

 

 

ela nada

e nada

pode lhe parar. . .

 

 

ela nada

dada

ao gosto de nadar

 

 

a danada

nada

e nada . . . enquanto há mar

 

 

nada, nada, nada

pode lhe afogar. . .

nem a mágoa

nem a água

nem amar!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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O ANJO

 

menino dormindo

O ANJO

 

o anjo morre

de sono

 

e dorme  

só pra sonhar

 

um colo menos frio

que o do abandono

 

nalgum lugar

além desse lugar. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ATRAVERSO

0310241

ATRAVERSO

 

através do verso

atravesso o espaço

fortaleço o laço lasso

e enlouqueço        

 

 

subo ao céu e desço

emudeço e passo

de sutil á espesso

de abundante á escasso        

 

 

e averso ao avesso

com desembaraço

faço e aconteço

e morro e renasço             

 

 

bem me reconheço

quando me disfarço. . .

cresço e apareço

defeso e devasso     

 

 

amo e amoleço

(rijo como o aço)

no cio do sucesso

seduzo o fracasso. . .

 

 

e afinal me esqueço

adormeço e abraço

o meu sonho imerso

nalgum verso esparso      

 

 

alço voo, tropeço

meço um passo em falso

valso e me arremesso

contra o que é percalço         

 

 

depois me despeço

da ilusão que caço

através do verso. . .

e me despedaço!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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MEIO AMARGO

MEIO AMARGO

 

MEIO AMARGO

 

Vivo a ver navios . . . não vejo novelas

Cansei daquelas velhas novidades

que fingem luz do Sol á luz de velas

sob a superfície das profundidades. . .

 

 

Nesta solidão cercada de cidades

que furtam toda a cor das aquarelas

os meus arcos-íris são atrocidades

ferindo o céu das tardes amarelas

 

 

que amareladas , morrem de saudades

dos tempos em que as vidas eram belas

e ainda não doíam as verdades

e nem haviam  grades nas janelas. . .

 

 

Também tenho saudades, como elas

mas, anoiteço antes dessas tardes

e a ver navios, encho-me de estrelas

que caem do céu . . . cheirando a tempestades.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ABRACADABRA

abracadabra  o religioso

ABRACADABRA!

 

Não, não temo me mostrar. . .

Escolho quem me descubra

Deixo claro: só sei me acostumar

com quem saiba enxergar-me a parte rubra. . .

 

 

Não é fácil fazer com que eu me abra

(cadeados, baús almejam chaves)

É preciso bem mais que abracadabra. . .

(Haja ave-marias, luvas , naves)!

 

 

pois procuro as saídas nos entraves

e do escasso retiro a minha sobra. . .

Meu silêncio é agudo e muito grave. . .

Dá razão á loucura e asa á cobra

 

 

Eu prefiro esquecer o que relembra

(Só deliro de ler o que é verdade)

Relembrar o passado me desmembra. . .

Eu prefiro sonhar a realidade. . .

 

 

Liberdade, pileque e Cuba libre

contra os salamaleques da maldade!

Quem quiser calibrar-se em meu calibre

deve ter um querer de eternidade

 

 

Quem me capta entende a minha fibra

Só me ecoam os ecos que se rendem

ao melhor derredor . . . onde o som vibra

Os meus graves agudos surpreendem!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: ‘THE RELIGIOUS’ MARC CHAGALL

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DO ÚTERO AO TÚMULO

DO UTERO

DO ÚTERO AO TÚMULO

 

Misturo-me ao que é mistério

Não tenho nada á temer

Eu entro e saio do sério

quando quero e sem querer

 

 

Começo do zero á zero

Não tenho nada á perder

E perco-me . . . Sou sincero

Só não pago pra não ver

 

 

Não sou super, mas supero

heroísmos á valer. . .

e nenhum ismo venero. . .

nem preciso ver pra crer

 

 

Do útero ao cemitério

e até no Além hei de ser

menino levado á serio

rindo, lindo de morrer.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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SERENAS METÁFORAS

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SERENAS METÁFORAS

 

Te espero amanhã, na rua central

no salto da rã, no voo do pardal

 

Te espero amanhã, ao sol matinal

com voz de Tupã

com cara-de-pau

 

 

Levo meu afã

meu árduo punhal

meu Leviatã

meu disco da Gal

 

 

E à luz da manhã

serei teu quintal

teu largo divã

teu sonho real

 

 

Te espero amanhã, no branco da cal

no pé de romã, no fim da espiral

 

 

Te espero amanhã, risonho e fatal

tal qual Peter Pan

tal qual Lobo Mau

 

 

E à hora pagã

virás jovial

serás cortesã

irmã virginal

 

 

E a tua voz sã

num verbo frugal

matará Satã

louvará Chagall

 

 

Te espero amanhã ,sem norma normal

sem pele nem lã, sem dor nem moral

 

 

Te espero amanhã , lascivo e brutal

tal qual Dom Juan

tal qual animal

 

 

E assim, “bon vivant”

serei marginal

guerreiro sem clã

arcanjo venal

 

E tu, a artesã

da luz sensual

da rubra maçã

do ardor infernal

 

 

Te espero amanhã, no ponto final

na alfombra do Irã, no vasto areal

 

 

Te espero amanhã sob o temporal

á sombra de Iansã

no espaço ideal

 

 

E o meu talismã

sobrenatural

Sol medieval

sumo de hortelã

 

será teu sinal

ritual de fã

profano Graal

nas mãos da vilã. . .

 

 

E a febre terçã

do teu corpo astral

nave espacial

isca de espiã

 

me fará Xamã

samurai leal

virtual Titã

a lamber teu sal. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO   (2001)

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ANTICLÍMAX DO ÊXTASE

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ANTICLÍMAX DO ÊXTASE

 

Deus, na sala dos espelhos

evita olhar-se nos olhos. . .

 

E embrulhado nos imbróglios

reza por nós, de joelhos.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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POR AMAR ELOS

POR AMAR ELOS

POR AMAR ELOS

(versão 2017)

 

Sou de alar os alaridos

de ler retratos falados

e também de dar ouvidos

a emudecidos brados

 

 

Por amar elos perdidos

e livros amarelados

amo livrar dos olvidos

versos desmemoriados

 

 

Tanto faz se faz sentido. . .

‘Sempre há Sol no céu nublado’

e o poema . . .  nunca lido

continua iluminado

 

 

Seja cinza ou colorido

Dorido ou  hilarizado

Desprezado ou aplaudido

Todo poema é ‘um achado’

 

-mesmo aquele meu . . . perdido

que nunca foi encontrado-.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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