POEMA ESCRITO NO ESCURO (ENTRE ESTRELAS DECRÉPITAS)

maiakovski

POEMA ESCRITO NO ESCURO

(ENTRE ESTRELAS DECRÉPITAS)

para Vladimir Maiakovski

 

Maiakovski ecoa como um hino

dentro do meu peito

‘mínima amplidão’

deixando-me assombrado qual menino

perdido em si

de falsa imensidão

 

 

O levo em mim, gigante clandestino

anjo de luz

recluso em meu porão. . .

E divagamos nus e sem destino

em noites

de completa solidão. . .

 

 

Ele poeta, eu não . . . Grão pequenino

a minha poesia

é um sonho vão

perto da sua. ‘Grande paladino’

‘montanha russa’

d’outra dimensão

 

 

Guardado em mim o levo e o imagino

meu grande e velho amigo

um meigo irmão. . .

ou semideus coberto de ouro fino

e descoberto enfim

na escuridão

 

 

Sigo seus passos como um peregrino

que vaga sem destino ou direção

sem bússola, sem mapa e sem senão. . .

versando entre a razão e o desatino.

PAULO MIRANDA BARRETO

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POEMINHO QUE NÃO FIZ QUANDO MENINO

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POEMINHO QUE NÃO FIZ QUANDO MENINO

 

O dia conta segredos no ouvido do entardecer,

coisas que a boca da noite nunca haverá de saber. . .

 

 

Se soubesse, ave Maria!

Quê haveria de fazer?

 

 

Fechava o céu para sempre,

não parava de chover

 

 

e o Sol nunca mais nascia

sem dia pra amanhecer. . .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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A DESDITA DO DITADO

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A DESDITA DO DITADO

 

Quem espera sempre cansa

‘descansa em paz’

‘perde a vez’

 

perde a voz e a esperança

ganha . . .  a dor

do que não fez

 

 

Quem espera sempre ‘dança’

perde a valsa

e perde o par. . .

 

Quem espera . . . não alcança

Só perde

por esperar.

 

PAULO MIRANDA BARRETO 05/2015

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OS FINS DO MUNDO

 

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OS FINS DO MUNDO

 

‘O FIM ESTÁ PRÓXIMO’ há tempo demais. . .

Jesus está prestes a voltar

atrás

 

Ai! O que será de mim

(de todos nós, aliás)

assim que do mundo

o fim

for pra sempre

nunca mais?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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O CEGO CLARIVIDENTE

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O CEGO CLARIVIDENTE

 

A flor,

a estrela-cadente

e o que o sentido não sente,

mudaram todo o meu dia. . .

 

 

O retilíneo horizonte

fundiu-se às curvas do monte

e a noite desceu sombria.

 

 

O amor,

o desejo ardente,

como o que vem de repente,

vieram com nostalgia.

 

 

Mas, qual o quê? Eu amante

da solidão lancinante,

que uso deles faria?

 

 

Da dor,

da mágoa crescente

e da tristeza inclemente

fiz-me escura moradia.

 

 

Meus olhos de diamante

e meu sorriso incessante

se foram na ventania. . .

 

 

O amor. . .

desejo vibrante,

como o que é sempre distante,

de mim é luz fugidia.

 

 

Pois meu coração descrente

foi cego clarividente

que, vendo o Amor, não o via.

 

PAULO MIRANDA BARRETO   (2001)

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REPRISE

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REPRISE

 

Podia ser meu rosto ou ser meu rastro

Destroços de um abraço vespertino

Podia ser um hino ou ser um astro

o lastro gasto e cru do meu destino

 

 

Podia ser azul ou cor de aço

o riso do palhaço ou do assassino

Podia ser um sino ou ser um traço

o estardalhaço nu do desatino

 

 

Podia ser a rua onde não passo

Mormaço de verão, frio repentino

girino, contrição, folhas que amasso

pedaço de canção, cão peregrino

 

 

Podia ser o som de um violino

menino, flor-de-lis, carvão, cadarço

esparso coração, tango argentino

ou fino castiçal que despedaço. . .

 

 

Podia ser as coisas que não faço

Lição que não aprendo nem ensino

Suspiro de renúncia ou de cansaço

Um verso que componho e não assino

 

 

Podia ser um riso de embaraço. . .

Paisagens que em silêncio eu imagino

Mas eras tu . . . reprise . . . sonho lasso

Amor que não começo nem termino.

 

PAULO MIRANDA BARRETO   (2002)

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SAFÁRI

safari

SAFÁRI

 

alguns caçam

pacas

outros caçam

patos

 

uns caçam com cães

e outros com gatos

 

(eu só caço com poesia)

porém, confesso que  iria

sem  pudores ou recatos

 

com dilatada alegria

a um safári algum dia. . .

só para cassar mandatos.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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TREVA ENSOLARADA

treva

TREVA ENSOLARADA

 

Sob a lua cheia de saudades tuas

irei  perambular por essas ruas

sem rumo, a ruminar pela cidade

fingindo acreditar que continuas

a unir teus versos pela eternidade. . .

vestida de verdade nua e crua

 

 

Mas, entre a escuridão e o sol que arde

a tua imensa ausência se acentua

e, sem clemência, em mim se perpetua

tornando inteira a dor que era metade. . .

 

 

inteira, ela dói mais do que a verdade

pois nada, nada, nada lhe atenua. . .

a tua ausência assombra a claridade

e a treva ensolarada á luz da lua.

PAULO MIRANDA BARRETO

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SOBRE O LEITE DERRAMADO

LEITE

 SOBRE O LEITE DERRAMADO

 

choro sobre o leite que você derrama. . .

e pelo suor que deixa                  

em minha cama

no céu do deleite

no tremor da chama

no sofá da sala

e no chão da cozinha. . .

 

 

choro pelos versos que você declama

e pela solidão

que se avizinha. . .

 

 

choro porque sei que você não me ama

e fica bem melhor

quando sozinha. . .

 

 

choro por perder-me dentro em sua trama

e pelo amor de Deus

(que outrora eu tinha)

 

 

choro sobre o leite . . . e por você derramo

as lágrimas que há anos

eu continha.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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HARAQUIRI

haraquiri 3

HARAQUIRI

 

Mais ladrões de bicicleta

que moças de lingerie

lembrarão de ti, poeta

quando te fores daqui

 

 

Terá mais fãs um atleta

do sertão do Piauí

do que tu mesmo, poeta

‘modesto’ e ‘cheio de si’

 

 

Tua poesia discreta

sem graça e nem frenesi

não leva a nada, poeta

(e o nada é logo ali)

 

 

‘Ganhar fama’ é tua meta?

Cometa um haraquiri. . .

pois que só assim, poeta

terás flashes sobre ti!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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