EDIFÍCIO

Acho que a tarde caiu

do alto de um edifício

e um precipício se abriu

entre a virtude e meu vício.

 

Aquele sonho explodiu

entre fogos de artifício

de uma forma tão sutil

que sequer deixou resquício.

 

E ela nem se despediu. . .

Isso é um vicioso indício

de que aquele amor febril

teve fim antes do início.

 

Acho que um anjo nos viu

e entregou-se em sacrifício. . .

Há desperdício mais vil?

Haverá maior suplício?

Paulo Miranda Barreto

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Anotações de neófito

Um dia descobri que o mar termina

porque entre um mar e outro, existe terra.

Um dia descobri que o amor termina

e que, quase sempre, é com tristeza e guerra.

Um dia vi que a luz que me ilumina

(minha razão) frequentemente erra.

E descobri, de forma repentina,

que a solidão é um silêncio que berra.

Paulo Miranda Barreto

LUMINOSO

 

Lentas, as horas escoam

num compasso dissoluto.

E as vozes que me povoam

deixam seu túmulo oculto.

 

E dizem versos. . .Caçoam

dos sonhos meus. Eu escuto.

As dores. . .deixo que doam.

Mal nenhum é absoluto.

 

E os males não me atordoam.

Eu sou dos sonhos reduto.

Eles, em mim, se amontoam.

Por força deles, eu luto.

 

E os vaga-lumes que voam

comigo á cada minuto,

sabem meu canto. . .e o entoam.

Guiam, na treva, o meu vulto.

Paulo Miranda Barreto

O QUE NÃO TEM REMÉDIO. . .

 

Deixe o desejo prá lá.

Devolva a onda pro mar.

Nada é melhor que esquecer

o que é ruim de lembrar.

 

Deixe um pássaro voar

que outro, mais belo, virá.

Um que não há de prender

o que se quer libertar.

 

Deixe ficar como está.

Deixe a ferida sangrar.

Dói o que tem de doer.

Sara o que tem de sarar.

 

Deixe a poeira baixar.

Que o que subiu descerá.

Querer é sempre poder.

Vencer nem sempre é ganhar.

 

Deixe o silêncio reinar

que ele, por si, falará.

Tolo é quem tudo quer ter.

Sábio é quem sabe se dar.

 

Deixe que a mágoa se vá.

Deixe a esperança crescer.

O bom da vida é saber

que outro dia nascerá.

Paulo Miranda Barreto

COPACABANA

 

 

 

 

 

 

AI DE MIM, COPACABANA

(Com a licença de Torquato Neto)

 

Ai de mim, Copacabana!

Sem folga em fim de semana

Sem pai, sem mãe e sem grana

Não posso ser nem estar. . .

 

 

Nesse país que me engana

(Corpo malsão, mente insana.)

grande é a mão que me afana. . .           

Não posso ter e nem dar.

 

 

Ai de mim, Copacabana!

Nessa sina desumana

até a sorte se dana

veste luto e vira azar.

 

 

Nesse país que me engana

Ai de mim, Copacabana!

Ai de mim . . . Copacabana

que ainda teimo em versejar!

 

PAULO MIRANDA BARRETO (2002/2003)

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vida

Quem leva na vida
dúvida velada
e de si duvida,
não se leva á nada.

E quem dilapida
pedra lapidada
sobe uma descida
muito acentuada.

Quem leva da vida
dívida elevada
vê dor dividida
ser multiplicada.

Quem de si duvida
não se eleva em nada…
Levarei da vida
a alma lavada.

(Só isso e mais nada).