SURDO MUNDO/VOX POPULI

vox2SURDO MUNDO/VOX POPULI

 

‘ora vá . . . se a voz do povo

é de fato a voz de Deus

os políticos são surdos

ou completamente ateus’

 

 

ah tá . . .  se a voz do povo é a voz de deus

por que então ninguém  lhe dá ouvidos?

se os reis não valem mais do que os plebeus. . .

por que não dão valor aos desvalidos?

 

 

se nós somos de fato, ‘semelhantes’

por que que  há vencedores e vencidos?

se há  mais comandados do que comandantes

por que os segundos são favorecidos?

 

 

porque quem rouba um pão é  ‘meliante’

e quem rouba um bilhão, é inocentado?

porque é que o eleitor paga o pecado

se o ‘pecador safado’ é o  governante?

 

 

não quero parecer mal educado. . .

perdoem, por favor, os modos meus

mas, ah! se a voz do povo é a voz de deus

ou todo mundo é surdo (ou eu tapado).

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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AO SUJEITO OCULTO

sujeito ocultoAO SUJEITO OCULTO

 

não te direi com quem ando

nem tu me dirás quem és. . .

 

 

e, ainda assim,  prosseguirei remando

(rimando) contra os males e as marés

 

 

qual ébrio (nu de brios) . .  . me equilibrando

no brando fio de luz de minhas  fés

 

 

improvisando cios e requebrando

ao ritmo febril dos afoxés

 

 

mas, nem teu Deus do céu sabe até quando

versejarei assim . . .  ‘sambando um jazz’. . .

 

 

a revelar meus lumes no que escondo. . .

e a ler o silente estrondo

de um  sol. . .

             se pondo . . .

                               a meus pés.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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COLIBRI DOS UMBRAIS

colibri3

COLIBRI DOS UMBRAIS

 

quase . . .  quase li nos lábios

daquela mulher de gás

o balbucio de um cio cálido

que oscilava  entre o azul pálido

e um esquálido lilás. . .

 

 

quase . . .  quase fiz-me audaz

decifrador . . . quase li. . .

a frase, o sim, os sinais

o som fugaz . . . mas, fali

 

 

por pouco não traduzi

pios de coruja sagaz

e cicios  de sucuri

mas fali . . .  não fui capaz

 

 

e então . . .  covarde, fugi

arrasando  roseirais

chorando . . . feito um guri. . .

que urrava rimas e ais

 

 

nunca, nunca, nunca mais

em tempo algum a revi. . .

nem nos sonhos matinais

nem nos versos . . .   que teci

 

 

pra todo o sempre a perdi. . .

(ou perdi-me . . . tanto faz)

depois . . . jamais, jamais fui bem-te-vi

 

 entrevei-me . . .  e percebi

 

-sou colibri . . . 

dos  Umbrais-.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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O CÉU DA FOTOGRAFIA

foto

O CÉU DA FOTOGRAFIA

 

a gente era feliz . . .  e não sabia

que o amor terminaria

por transformar-se em algoz

 

 

e, após seu apogeu, devoraria

nossa eufórica alegria

feito um sádico feroz. . .

 

 

na foto que tirei naquele dia

-você sorria às margens da baía

enquanto, ao longe, via um albatroz-. . .

 

 

por incrível que pareça, Luzia . . .  não parecia

que o sonho pereceria. . .

que acabaríamos sós. . .

 

 

reféns dessa esquipática apatia   

escravos duma trágica agonia

que assombra e asfixia os girassóis

 

 

Luzia . . . quem diria? quem diria?

a gente era feliz . . .  e não sabia

que o céu . . .  da fotografia

cairia sobre nós-.

PAULO MIRANDA BARRETO

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POEMA PRA A NOVIÇA

novica2POEMA PARA A NOVIÇA

 

Noviça . . .  porque estrangulas

tuas gulas violáceas

e gélida dissimulas

a rubra cor das acácias?

 

 

se até o verme copula

procria . . . e  dá-se ás audácias

em nome de quem te  anulas ?

 

não vês . . .  que enquanto te anulas

Deus

            ejacula

                             galáxias?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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SARAH,VÁ!

sara3SARAH, VÁ!

 

Sarah . . . vá pra Calcutá

pro  Qatar , catar coquinho

fartei-me de bafafá  

tititi e burburinho

 

 

vá dar show em Bogotá

dar piti no Pelourinho

vá pra lá de Bagdá

deixe eu cá no meu cantinho

 

 

fico bem melhor sozinho

sem sarna pra me coçar

sem você no meu caminho

‘ratazana a atazanar’

 

 

Vá que vá caçar um ninho

(de cobra) pra se acoitar. . .

Vaze! Saia de fininho

‘à francesa’ . . .  au revoir!

 

 

desocupe o meu espaço

por Oxum, por Oxalá!

que enjoei de estardalhaço

de arerê, de blábláblá

 

 

de fuzuê , de barraco

de você . . . vá se danar!

ou vá pentear macaco

nos quintos do Macapá

 

 

não tenho nervos de aço

nem dever de lhe aturar

vá com deus! aquele abraço!

tô mandando se mandar!

 

 

o seu espírito opaco 

não vai mais me apoquentar. . .

vá encher um outro saco

que o meu, está cheio já

 

 

vá procurar sua turma

seu rumo noutro lugar

no inferno, em parte alguma

desapareça no ar!

 

 

vá tomar banho de espuma

(ou de lama) num spa. . .

demore lá .  .  depois suma

evapore Sarah, vá!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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NÃO É SÓ

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 NÃO É SÓ

(Para eriçar Berenice)

 

a vida é tão curta quanto a sua saia. . .

não se iluda, ela é miúda,  Berenice

 

vá pecar um pouco . . .  cair na gandaia. . .

e esqueça a sandice que a ‘santa’ lhe disse

 

 

não perca seu tempo, não se desperdice

contando seus sonhos à uma samambaia. . .

 

não deixe que o lume do seu ser se esvaia

ouse ser feliz  . . .  deixe de tolice!

 

 

saia da tocaia , vá pôr um biquíni

pegar uma praia, tomar um Martini

fazer uns amigos . . .  namorar, menina!

que a vida é mais curta do que se imagina. . .

 

 

abandone essa clausura

‘caia fora’ da rotina

desse tédio que tortura

e cheira a naftalina. . .

 

 

vá se apaixonar menina!

deixar que o Sol ilumine

sua cena, sua sina

antes que a tarde termine. . .

 

 

não há ‘hora certa’ nem ‘dia de sorte’

pra gozar a vida . . . 

pra realizar-se. . .

 

 

também acredito em vida após a morte. . .

mas, não é só pra morrer

que a gente nasce.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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LENHA NA FOGUEIRA

lenhaLENHA NA FOGUEIRA

(ou FOGO DE PALHA)

 

Cadê aquela ‘gente das panelas’

das ‘camisas amarelas’

que clamavam por ‘Justiça’?

 

 

Acaso resolveram-se as mazelas

as quizilas, as querelas?

(ou a ‘massa’ fez-se omissa)?

 

 

Pra onde foram tantos tagarelas

(todos aqueles e aquelas)

Entregaram-se a preguiça?

 

 

E o povo das ‘senzalas’, das ‘favelas’???

Cadê os Lampiões, os Marighelas???

Aonde estão, meu Deus? Foram à missa?

 

 

Verteu-se num silêncio angustiante

‘’de um povo heroico o brado retumbante’’?

O mal enfim venceu . . .  pela insistência?

 

 

Tornou a ser anão o tal ‘Gigante’?

O pouco que fizeram . . .  foi bastante?

A exclamação tornou-se reticência?

 

 

E as indignações contagiantes

dos ‘cidadãos de bem’, ‘manifestantes’?

Renderam-se a uma ‘santa paciência’?

 

 

 

Padecem de impotência os replicantes?

São ‘fulos sob efeito de calmantes’?

(ou TODOS . . . padecemos de demência)?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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VALEU!

pipas4VALEU!

 

a boca dispara raios 

diz : ‘para-raios arranham

céus nos quais os papagaios

dos meninos . . .  se emaranham’

 

 

e a boca dispararia   

impropérios, palavrões

mas diz pura poesia. . .

‘O rio sorriu erosões’

 

 

a boca até pariria

asperezas, maldições. . .

mas quer dizer poesia

(que enluare assombrações)

 

 

faz da brisa ventania

faz das geleiras vulcões

faz da tristeza alegria

transforma tudo em canções

 

 

diz: – Daniel, a poesia

vigia a cova e os leões. . .

e a dor que há nela extasia

e anestesia aflições

 

 

desilude luzidia

mil sombrias ilusões

e com malícia alicia

sinas e alucinações

 

 

mas, meu deus! Ave Maria!

a boca que  floresceu

há de murchar algum dia

cheia de silencio e breu.. . .

 

porém, se deixar poesia

ah! se cantar poesia

se semear  poesia

antes de calar . . . valeu!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ÚLTIMOS DESEJOS

 

tristesse-fabien-kerneis-1ÚLTIMOS DESEJOS

 

queria pensar em nada. . .

esquecer de tudo . . . tudo. . .

ficar cego, surdo, mudo

tornar-me um ser inumano. . .

 

 

beber . . .  todo um oceano

(matar a sede afogada)

e tornar-me alma penada

ou mais simplesmente, um bicho

 

 

talvez dormir

(morrer) de madrugada

e súbito . . .  acordar em Machu Pichu

 

 

despido desta angústia

gangrenada. . .

(ainda que entre a espada e o crucifixo).

 

PAULO MIRANDA BARRETO

ARTE: YOK MORIMOE ( XHXIX/HI)

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