VIDE BULA

VIDE BULA ADELINO ÂNGELOVIDE BULA

 

viu aviões encalhados

e navios anuviados

num céu nublado de abril

 

 

viu um elefante alado

(e cor-de-rosa) avoado

pousado num peitoril

 

 

viu arcanjos empalhados

e espantalhos espantados

com seu riso . . .  azul- anil

 

 

e adormeceu debruçado

sobre um poema inspirado

na bula . . .  do Rivotril.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

IMAGEM: ”DESESPERADO” de Adelino Ângelo

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CAUSA MORTIS

CEMI1CAUSA MORTIS

 

Alfredo morreu de medo

Julião, de solidão

Severino morreu cedo

de sede (ou de inanição)

 

 

Marina morreu de tédio

Jaqueline, de paixão

Ana, dum mal sem remédio

sem causa ou  explicação

 

 

Otávio morreu de amor

Ermenegildo, de ódio

Gil morreu de dissabor

(e por abuso de sódio)

 

 

Helena morreu dormindo

Feliciana, de infarto

e eu . . .   hei de morrer fingindo

ser poeta . . . neste quarto.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

 

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CEGO

CEGO2CEGO

 

Estou cego, mas, enxergo

o que ninguém mais quer ver. . .

O pior cego  . . .  é o Ego

de quem não quer nem saber .

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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AVISO AOS IMPLICANTES

IMPLICANTES2AVISO AOS IMPLICANTES

 

é inegável que o bom senso está em baixa

e é consenso que o respeito está em falta

por consequência . . . a baixaria está em alta

(tanto que, mesmo gente culta, se rebaixa)         

 

 

decido então, pensar melhor (fora da caixa)

e, logo,  agir sem adotar conduta incauta

 

 

pois, quem  põe lenha na fogueira

(e nela salta)

por conta própria . . .  se denigre

e se esculacha.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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DIREITOS

direitos5DIREITOS

 

Direita! Esquerda!

Direita!  Esquerda!

Direita! Esquerda!

DIREITOS . . . vou ver?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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MISSÃO IMPOSSÍVEL

missão5MISSÃO IMPOSSÍVEL

 

é bem mais fácil achar

uma agulha no palheiro

um granizo no braseiro

um curimbatá no mar           

 

 

e até mesmo erradicar

a fome do mundo inteiro

do que, dialogando, mitigar

a latomia bipolar do brasileiro.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ABOMINÁVEL MUNDO NOVO

ABOMINÁVEL1ABOMINÁVEL MUNDO NOVO

 

Vivemos hoje, tempos tortos, tenebrosos

em que discernimento e luz são ouro escasso

em que a ‘verdade’ é invenção dos mentirosos

( ‘luz’ que conduz vitoriosos . . .  ao fracasso)

 

 

A informação que desinforma agora é norma

e a distorção não serve só para as guitarras. . .

Quem nos ‘governa’, age em prol do que deforma

(a Besta esconde a realidade e mostra as garras)

 

 

Hoje as formigas são escravas das cigarras

dos gafanhotos e das pragas mais diversas

E, de bom grado, usam vendas e amarras

ludibriadas por razões mais que  perversas. . .

 

 

Já não são bem-aventurados os aflitos

mas sim os biltres (muito jovens ou vetustos)

A injustiça é cega sim  . . .  e os seus ritos

tiram a paz, o pão e o sono dos mais justos

 

 

Hoje o Herói é o que encoraja a covardia

Hoje o Vilão é o que contesta a tirania

e o Condenado é o que batalha pelo povo

 

 

A Nova Ordem desordena a harmonia. . .

joga no cárcere o que é Democracia

e louva a Lei do ‘’abominável mundo novo’’.

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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QUESTIONAMENTO FORTUITO

QUESTQUESTIONAMENTO FORTUITO

 

Se poeta bom é poeta MORTO

se poeta bom é poeta IMORTAL

o poeta VIVO ( muito reto ou torto)

é um mal poeta ou é  poeta mau?

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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ZERO AÇÚCAR

zero açúcar1ZERO AÇÚCAR

 

aos poucos, do nosso amor

fez-se insípida a doçura

fez-se gélida a quentura. . .

verteu-se a candura em ira

 

 

e nossa alegre alameda

fez-se rua da amargura

estreita, torta, obscura

e lamacenta . . .  Jacira

 

 

o nosso plano, que era sonho e fez-se jura

verteu-se em ávida ojeriza crua e dura

que incinerou nossa ternura numa pira. . .

 

 

a lucidez que nos guiava . . . hoje delira

ardendo em  febre sobre o colo da loucura. . .

e atormentada pela dor , ela murmura:

 

-nossa Verdade era embrião . . . duma mentira!

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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MORAR NO LUME

morarMORAR NO LUME

 

incomodado, eu ouço o cricrilar dos grilos,

a triturar, a estilhaçar os meus sigilos  

e os meus anseios de cristal

dentro da treva. . .

 

 

conhecem bem os mil idílios que mutilo,

todos os versos que componho, que compilo

e a solidão sem fim da qual

minh’alma é serva . . .

 

 

eles veem  tudo que elaboro, que burilo

sabem as rimas que eu adoro, as que repilo

e tudo aquilo que me acalma ou que me enerva

 

 

com asco, espiam-me . . .  e homiziam-se na relva

enquanto tonto,  entre a paz e a guerra oscilo

buscando o utópico equilíbrio sob a névoa

 

 

desta assombrosa, impiedosa e fria selva

dentro da qual, por ser covarde, inda me exilo

feito um Adão selvagem , lúgubre  . . . e sem Eva

 

 

somente um último desejo se conserva

dentro de mim : morar no lume que me enleva. . .

e converte-lo em meu  eterno e terno asilo

 

 

entrar no lacrimoso olhar dos crocodilos

que, pelas noites, observam-me  tranquilos. .  .

enquanto o pálido luar no ar se eleva

 

 

e nunca mais . . . ouvir o cricrilar dos grilos

a triturar, a estilhaçar os meus sigilos. . .

e  os meus anseios de cristal . . . dentro da treva.                

 

PAULO MIRANDA BARRETO

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